não deixa de ser amor
Já o vulgo, na sua pachorrenta ignorância, a apodara de tola, e tudo por essa imperdoável falha de sentir em demasia. O excesso de alma, bem se sabe, é uma moléstia que condena o enfermo a uma perpétua sala de espera. Quem muito sente, muito aguarda; e esse “muito”, regra geral, ou desdenha aparecer, ou chega a desoras, deixando o pobre romântico plantado na sua própria inércia, a gastar-se em fúteis suspiros.
Aos vinte e dois anos, Daniela padecia dessa adorável idiotice. Era, todavia, uma tola esplêndida. Jovem, de uma esbeltez felina, ostentava um busto farto que a respiração ansiosa traía e uma cintura de vespa, feita propositadamente para ser enlaçada. Vivia devorada por um formigueiro de desejos, mas toda essa lascívia não passava da ombreira do seu quarto; o atrevimento era-lhe um luxo estritamente noturno. Entre quatro paredes, na langorosa transição entre a vigília e o sono, entregava-se a uma voluptuosidade solitária, explorando os contornos do próprio corpo com mãos trémulas e febris, empurrando as fronteiras do pudor e descobrindo, a cada noite, novos continentes de prazer.
Foi no auge desta febre dos vinte e dois anos que o acaso, esse dramaturgo das tragédias de província, lhe atirou com o André para diante dos olhos. “Conhecer” será, porventura, um verbo de excessiva intimidade para o caso. Digamos que os seus destinos se cruzavam, com monótona pontualidade, no café da Alameda, cuja esplanada se debruçava, num bocejo melancólico, sobre as águas pardas do Douro. Ali, entre o tilintar das colheres de chá e o aroma a borra de café, trocavam olhares carregados de intenções mudas e os regulamentares “bons dias”. Havia sorrisos de soslaio, estudados com a minúcia de um tratado diplomático, e aqueles fortuitos esbarrões na fila da caixa, invariavelmente coroados por um precipitado pedido de desculpas, enquanto a decência pública disfarçava, a muito custo, o palpitar acelerado dos corações.
Para a plateia ociosa do estabelecimento, a cumplicidade era patente; havia indubitavelmente ali um “romance”, que escorria entre um gole e outro. Para Daniela, porém, havia um universo inteiro. Nas horas lúbricas do crepúsculo e nos primeiros raios rubros da alvorada, deixavam de ser dois pacatos cidadãos; eram amantes formidáveis, enredados numa paixão de proporções épicas, de uma devassidão sublime. Depois, claro está, chegavam as dez da manhã e, à luz implacável do café, não passavam de dois clientes habituais, paralisados pela teia de seda da conveniência e do tédio.
O Duarte e a Margarida, observadores implacáveis daquela pacata comédia de costumes que se desenrolava, partilhavam uma convicção inabalável. Para eles, aquele insólito “casal”, teimosamente separado pela aridez de uma mesa de mármore, acabaria, mais dia menos dia, por fundir os seus destinos no mesmo assento, unidos pela gravidade do tédio ou pela força do acaso.
A pobre Daniela, alma alimentada a folhetins e suspiros, já percorrera, na sua fértil imaginação, todas as estações do idílio. Nos recessos do seu quarto, já se vira aninhada nos braços daquele seu André. Já o tomava por seu, num abandono terno, cálido e definitivo. Eram, contudo, as quimeras do costume; o fumo diáfano com que as raparigas românticas toldam a banalidade dos dias.
Mas eis que, numa luminosa e vulgar manhã de sábado, a Margarida tropeça no escândalo. Irrompeu pela sala com os olhos a faiscar daquela excitação muito particular, quase febril, que só a desgraça alheia consegue acender.
— Ó Duarte, tu nem calculas o que se passou! — ofegou ela, desabando na cadeira, esmagada pela novidade.
— Então, criatura? — acudiu o marido, erguendo o sobrolho por cima do telemóvel.
— Aqueles nossos pombinhos do café… o tal futuro casal. Pois bem, finou-se o romance!
— Como? Conta lá isso…
— O rapazinho lá estava, mas hoje, vê tu bem, muito repimpado ao lado de uma figurinha faceira. De mãos dadas e, descaradamente, num entrelaçamento de beijos indigno da via pública!
— E a nossa heroína? A miúda?
— Uma lástima! Tinha a cabeça pendida, os olhos baços e vítreos, como quem assiste, da plateia, ao desmoronar do seu próprio império. Engoliu o café em seco e abalou dali para fora, a bufar, com o porte trágico de uma esposa apanhada na mais torpe das traições.
— O que eles querem… — filosofou o Duarte, abanando a cabeça com bonomia. — Dois meses inteiros de languidez e de olhares de soslaio, sem que nenhum se dignasse a abrir a boca. Viveram de brisas, de passividade e de esperanças vãs.
Longe dali, Daniela arrastava a sua miséria pelas ruas. Sentia-se, com a mais absoluta e dolorosa convicção, uma mulher traída. Para o seu coração desfeito, acabava de ruir uma paixão avassaladora à qual se havia entregado até à última gota da alma. E era exatamente essa a tragédia cómica da sua dor: sentia-se repudiada, abandonada e vilipendiada, possuindo até as provas visuais de um adultério horrendo, cometido no seio de um casamento que nunca chegara a existir.
É a velha e triste fatalidade das almas mudas: quando o coração palpita furiosamente, mas os lábios se acovardam num silêncio burguês, por mais sublimes e arrebatadoras que sejam as linhas desse romance ideal, o livro acabará, fatalmente, por apodrecer no escuro de uma estante, intocado, consumido pela traça e pelo pó de uma hipotética história.
Para a Daniela foi amor. Anos depois ainda é.
@almacaeira
#amor #desapego #escrita #Romance





