Al final, el amor de verdad no tiene nada que ver con esas películas donde todo es épico y complicado.
Lo que realmente te vuela la cabeza es esa sensación de que, por fin, puedes soltar los remos y dejar de intentar que las cosas encajen a la fuerza.
Cuando tienes a la persona adecuada delante, se acaba ese ruido mental de estar analizando cada palabra o cada gesto.
Hay una especie de calma que te recorre el cuerpo porque sabes que no tienes que ser una versión perfecta de ti mismo para que se queden.
Te miran con todos tus rotos y tus manías, y aun así, eligen quedarse a tomar un café contigo y escucharte las tonterías de siempre.
Es ese refugio donde los silencios no pesan, donde la atención no es algo que tengas que mendigar y donde el cuidado sale de forma natural, sin facturas ni deudas pendientes.
Lo notas en cómo te busca la mirada en una habitación llena de gente o en cómo se preocupa por ese detalle tonto que habías soltado de pasada.
Es, simplemente, sentir que alguien ha decidido que tu mundo merece la pena ser habitado.
Y ahí, en esa certeza compartida, es donde todo lo demás deja de importar.
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Acontece
Serras antigas. Tudo antigo. A pedra. A gente.
Eu cheguei da cidade. E o que estava gasto, o que estava há muito gasto, pareceu-me de repente intacto. Inédito.
Os novos já não estão. Partiram. Os que ficaram são o tempo. Os amores. Amores velhos, mas com o espanto do primeiro dia. Um cuidado que não envelhece.
Ermelinda. Tinha dezoito anos. O Orlando. Vinte e quatro. A capela da Senhora da Aparecida. Pequena. A aldeia pequena. O amor Grande.
Ele era só ele. Órfão de tudo. Restava-lhe a terra. A terra que lhe dava de comer.
Acreditamos, nós, que o passado era obediência. Os arranjos. Os pais a mandar. Emparelhar por medida. Ermelinda não. Escolheu. Casou na capela pequena. E o amor era enorme. Ocupava tudo.
Acreditamos também na sombra. No pudor escuro. O corpo fechado, escondido por sete saias. Temos em mente, que gente de outros tempos era pudica. Ermelinda ri-se. Um riso que vem de longe. Do fundo da garganta.
A rapaziada de agora não descobriu nada. Não há nada de novo debaixo dos lençóis. A diferença. O decoro, diz ela. Perdeu-se o decoro. E o desejo. A vontade. Para ela, o Orlando. Um garanhão. Diz a palavra devagar. Como já não há. O corpo dela, tão velho, ainda a lembrar-se. Mas o ventre. Nunca deu nada. Estava fechado. Hoje já existem tratamentos, mas não naquela época.
O medo. O terror silencioso de que ele se fosse embora. De que a deixasse. Um homem quer a semente. Ele não foi. Ficou. Sempre ficou. E um dia. Ermelinda sorri. Um sorriso enrugado. Quase menina, ele chegou-se perto e sussurrou-lhe da égua. A Castanha.
A Castanha também nunca pariu. Mas era a mais mansa. A mais forte. A que trabalhava mais. A melhor de todas elas. Ele disse isto. O amor era isto. A força pura do bicho. A verdade da terra. Não havia ofensa. Apenas a vida, crua. A compreensão intacta.
A aldeia antiga. O tempo antigo. Onde o amor não se explicava. Apenas resistia.
Dois anos. Foi quanto durou. Depois o barco. O ultramar. O Orlando levou a farda e foi.
A Ermelinda ficou. Quatro anos. Não se conta um tempo assim. A terra dura sob as mãos. Trabalhava por dois, de sol a sol. A terra ressequida. E essa mesma aridez dentro dela, debaixo da pele, a espalhar-se nas pernas, na barriga. A poeira no próprio corpo. Porque ele não estava.
Uma carta. De muito longe em muito longe, um papel escrito. A espera. Até que os passos voltaram. Um dia, era ele. A porta a fechar-se. Tudo de novo. A mesma porta para uma primeira noite. Novas núpcias.
A Ermelinda tem pressa de falar, agora. Desafoga-se. Atira as palavras. Fala do cinema. Daquele filme da lagoa. Diz que eles já sabiam. Antes, muito antes. Antes que o ecrã soubesse do amor, eles já o tinham feito. Lá em baixo. A ribeira. A água a rasgar a pedra, a abrir lagoas redondas. O verão quente. A água chamava-os. Ir às profundezas. Deixar a roupa na margem e ir.
Hoje vêm os outros. Os de fora. Turistas. O rio já não é o mesmo. Leva menos água, as lagoas encolheram. Mas os estranhos fazem igual. Descem pelas pedras. A Ermelinda passa e vê-os. Como vieram ao mundo. Nus, na água pouca. Como ela e o seu Orlando.
Confessa. Não sabe. Possivelmente as coisas não morram, talvez fiquem guardadas no tempo. Ou então é a aldeia. A natureza daquele chão. A água. O desejo agarrado à rocha, à espera de quem passe.
A vida, a insistir. A resistir.
E o amor a acontecer.
O desejo não é de hoje. A imaginação também não.
A Ermelinda diz isso.
Lembra o Manuel. O falecido Manuel. Caiu doente um dia. Uma coisa no estômago. Um nó cego por dentro, que o deixara magro.
Foi preciso a bruxa. Disseram que ela lhe arrancou o mal. Que o fez deitar fora. Ele gurgitou. Uma bola, uma bola de pelos.
Pelos curtos. Espessos. Gurgitou como um gato.
A aldeia benzeu-se. O Demo, disseram. Obra certa do diabo. Todos comentavam.
A Ermelinda sabe. As mulheres daquele tempo também sabiam.
O Manuel e elas. Ele punha-se de joelhos. Gostava de estar de joelhos. Pelos curtos.
A Ermelinda ri-se. Não diz a palavra. Fica só o riso.
O desejo já existia. Já se saltava a cerca.
O amor é antigo, como a aldeia. Mais antigo até que a aldeia. O adultério também. Antigo. Surgiu depois do amor, gémeo do desejo, primo da tentação. Por vezes vencia. Por vezes, ainda vence.
Para a Ermelinda, e para o Orlando, o amor venceu. Por culpa de ambos o desejo foi sempre satisfeito no seio do amor. E hoje é antigo, como eles, como a aldeia. Como muitos amores.
@almacaeira
#aldeia #amor #escrita #RomanceA tu lado (en Cápsula de Itan)
Escrito sobre el cariño, el amor y la vida en común
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Es un líquido preparado fregasuelos amor con hierbas, esencias y a veces colorantes mágicos que se diluye en agua para fregar suelos, limpiar espacios o incluso rociar ambientes. Se considera un elemento de magia doméstica porque combina la limpieza física con la limpieza espiritual.
A escolhida
Nunca o disse. Falam do prazer, mas para mim é como um susto. Um medo brando quando o desejo do outro esbarra em mim. Não é o corpo, pelo menos não no início. É uma fenda que se abre. Sem aviso. Sem o meu mando.
Começa no peito, um calor lasso. A desproteção. A desapropriação. Nesse instante, não sei de mim. Mostrar o meu interior, a parte que tapo todos os dias. Depois o resto. A pele. O ar que esbarra no outro e regressa diferente. Há um momento em que a cabeça desiste. Fica apenas o sentir. Tudo ao mesmo tempo. A proximidade. Perto demais. Tão perto que o fingimento cai ao chão. Já não há espaço para fingir. Já não há.
O que eu quero. O que eu nunca disse que quero. Não é o espasmo, não é o prazer. É o desejo de importar. O desejo de estar ali. Não por vício. Não por acaso. Porque alguém me quer. Um querer sem sombra.
Sobe devagar. Uma água lenta e forte. Como um mar que se recobre de orvalho. Tento fechar as mãos, segurar, e perco. Perco tudo. O corpo a deitar cá para fora o que estava fechado, há tanto tempo fechado. Quase excessivo. E o fim… não é o corpo. É a trincheira a desabar. Segundos em que o corpo fala, de uma vez, aquilo que a cabeça sempre calou. Uma nudez pior do que a da pele. Como se alguém me visse. A ver mesmo. Exatamente aquilo que sou.
O que fica. Depois dos murmúrios, dos suspiros, o silêncio. As palavras já não fazem falta. Tudo dito.
Então é isso certamente. O clímax. O que nunca admiti. Não é o prazer.
É a mão que aponta e diz: tu.
É,
ser a escolhida.
@almacaeira
#amor #Autoconhecimento #escrita #RomanceFronteira
Bateu a porta com força a mais. A respiração curta, entalada na garganta.
— Duarte. Duarte?
Eu estava na sala. Levantei os olhos.
— Guida. O que foi?
Ela andava de um lado para o outro. Com o casaco ainda vestido e os ruídos da rua engarrafados nela.
— O João. Lá do escritório. Cansa-me. Cansa-me a paciência toda. Acha que o mundo inteiro lhe pertence. Acha que tudo tem de ceder.
Acompanhei o movimento dela, focado nas suas mãos inquietas.
— E isso irrita-te. Porquê? — suspirei. — Está a provocar-te? Devo ter ciúmes?
Ela parou. Não fosse a gata a ronronar, só haveria silêncio naquele instante.
— Não.
Depois.
— Sim.
E logo a seguir, num sopro.
— Não. Chiça, Duarte! Ele não tem limites. Não tem modos nenhuns.
— Então. Se não estás irritada. Se ele só provoca. E se eu não devo ter ciúmes… — confesso que tive que me conter, porque eu não via nenhum problema e considerei que o problema dela era achar que eu assumiria a situação como um problema. — A liberdade não usa trela. Está tudo bem, Guida. Ignora.
A Guida olhou para o chão. Para a gata. Para a geometria da luz no chão e a sombra da gata.
— Devias ter ciúmes.
Afinal estava errado. O problema, a irritação dela, era de saber que eu não iria rotular esse acontecimento como um problema.
— Não. Ter ciúmes seria não confiar em ti.
Dizem do ciúme. Que é a sombra do amor. Mas o ciúme não é amar. É fechar a mão sobre a coisa. Ter, possuir. Ciúme é o contrário de confiar.
— E se eu não confiar em mim?
Ficou dito. O ar fechou-se, denso. A revelação de uma falha. Uma fissura. Andamos cheios de areia. Um deserto inteiro do lado de dentro da boca. Secura.
O hábito antigo de não ter água. E quando a água finalmente aparece. Quando há, de repente, uma nascente. A sombra onde repousar. Hesitamos.
— Se não confiares em ti? Nunca te vi insegura. Nunca te vi hesitar. Onde está a dúvida, Guida? Ela recuou um passo. Um passo mínimo, impercetível.
— Não sei. Não sei. A maneira como ele fala com as outras. Hoje, comigo… transbordei. Saltou-me a tampa. Só isso.
— Fronteira. Estabelece uma fronteira. Uma fronteira nunca é uma meta. É outra coisa.
Margarida conformou-se. Devagar. O corpo começou a perder a tensão.
— Sim. Não é para chegar. É para saber até onde se pode ir.
Aproximei-me e senti o ar menos denso.
— E eu, Guida. Até onde posso ir eu?
Ela levantou o rosto. A olhar-me nos olhos com facies atrevida.
— Até onde te levares.
Não. Não vou dizer para onde fomos.
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