Na rua cheia de sol, há casas paradas e gente que anda…
Ao cair da tarde de ontem, saí para passear com o cão. Ele parece (re)conhecer os caminhos, mesmo quando eu não os repito. Seguimos em frente: ele farejando o chão, as árvores e os jardins mal cortados… enquanto eu observo as anatomias irregulares do lugar.
Ao virar uma esquina, fotografei uma janela. O detalhe é que eu não tinha comigo uma câmera, nem mesmo a do celular. Algo muito raro para mim. Desde a infância, tenho o hábito de carregar uma câmera como se fosse uma extensão do meu próprio corpo. Nunca quis ser fotógrafa por profissão. Eu apenas gostava dos cenários e dos cliques congelados, que me permitiam olhar centenas de vezes para o mesmo lugar, descobrindo cada pequeno detalhe. Talvez por isso eu tenha decidido fotografar a mesmíssima janela da casa vizinha durante trinta dias — repetindo o ritual do personagem de Paul Auster em um de seus contos.
Tenho para mim que foi exatamente esse hábito que me fez escrever. Comecei a descrever os lugares e as pessoas que eu não conseguia capturar com um clique. Escrever virou o meu jeito de revelar fotos em folhas de papel.
A janela de ontem ficava nos fundos de uma casa imensa. Cenário perfeito para uma história que ainda não escrevi. A veneziana aberta e o vidro apoiado em borboletas prateadas mostravam um fundo fosco. Uma senhora apareceu. Cabelos de cinza, pele de leite, olhar opaco de quem chora uma perda recente. O que ela perdeu? Não sei. O mistério permaneceu ali.
Fiquei por lá apenas o tempo que o cão levou para cheirar o rastro de outros bichos. Guardei o negativo na mente. Na volta para casa, cruzei com dezenas de outras janelas e lembrei dos meus tempos de escola, quando eu traduzia o caminho em sentimentos — um exercício despreocupado que buscava o equilibrio entre o real e o imaginário.
Cada artista usa a sua ferramenta. O pintor recorre ao pincel. O desenhista, ao carvão. O fotógrafo, à câmera. Eu uso a palavra. Mas a arte que criamos busca exatamente o mesmo destino.
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