A ilha

Ninguém. Ninguém é de ninguém. Se a posse existe, o amor não está lá. É outra coisa. O cativeiro.

A Patrícia. Como ofício, o mais antigo. No princípio, a sobrevivência conveniente para não afundar. Depois, o quarto fechado. A escolha. Dizem que ninguém escolhe aquele lugar. Ela escolheu. É livre. Muito mais livre do que eles. Eles, os que empurram a porta com as suas faltas, com a fome que não passa. Pagam. Pagam pelo vazio que trazem nas mãos.

Tem de se gostar de estar ali. E ela gosta. Não de todos. Não. Recusa. Deixa alguns à porta. Há nela uma precisão fria, um requinte calmo. O prazer. Dar o prazer. Senti-lo. E nem sempre é a carne. Pode ser o absoluto silêncio. A contemplação. O limite exato da dor. A arte da espera.

Lá fora, julgam-na. Os olhares. Os homens, sobretudo os homens que ela não quis. Esses. Dizem palavras grandes. A liberdade das mulheres. A emancipação. Mas não perdoam o “não” da Patrícia. Não perdoam que ela escolha.

Ela olha para o dinheiro. O dinheiro que lhe deixam pelo desejo. Um desejo que, diz ela, viveria de graça. Apenas pela evidência do prazer.

O amor não é a prisão. O amor não prende. O desejo, sim. O desejo é um muro.

A Patrícia sabe. Vê-os chegar, todos os dias. Mulheres. Homens. Trazem nos corpos a fadiga de anos. Décadas com a mesma pessoa. O peso das casas partilhadas. Estão presos lá fora. E vêm ali. Procurar a respiração.

Chamam-lhe P#t@ esses que a desejam, mas ela rejeita.

O teto tem rachas minúsculas. A Patrícia fita-as, a respiração ainda funda, o suor a arrefecer devagar. Quatro paredes. Uma cama no meio.

Para ver a cama, talvez seja preciso sair dela. Subir até onde as sombras se cruzam, colar as costas ao estuque e olhar para baixo. Como uma ilha. “Sair da ilha para ver a ilha”. Se aquele escritor de óculos estivesse lá em cima, pairando, o que veria o homem das palavras? O que veria ele?

Veria as mãos. Os pulsos dela, amarrados. As cordas a morderem a carne, a pele primeiro vermelha, depois branca. Os tornozelos imobilizados no ferro. A quietude de quem aceita o corpo do outro. O ofício da noite. Lá de cima, não haveria juízos sobre os nós cegos ou sobre o couro. Haveria apenas a geometria dos corpos. A espera contida.

Porque a espera é o centro de tudo. Sabe que a porta se abrirá mais tarde. E será ela a apertar a corda. O chicote na mão dela, a voz seca, a ordem dada sobre outro corpo deitado ali. A mesma cama. A outra face da pedra.

A imagem do escritor dissolve-se no teto. Fica a luz amarela do candeeiro. Fica o peso. O cansaço desce pelos braços dormentes, como água espessa, como chumbo. O corpo exige a sua trégua. Os olhos fecham-se, ela cede. A exaustão é a única corda que não se desata.

a entrevista

De tarde, e a porta vai abrir-se. É a Margarida que chega. A jornalista. A minha Margarida.

As palavras começam pelos sítios do costume. O quem. O como. O onde. O chão seguro das histórias de uma vida. Até que a Margarida levanta os olhos. O amor.

Como descreve o amor?

Como qualquer pessoa. Com desconfiança.

A palavra fica no ar. Desconfiança. Como se o amor não existisse. Mas existe.

É apenas perigoso. Perigoso porque é raro. Tão raro. Passam os anos. Passam as pessoas. E a Patrícia vê. Vê a carência mascarada de paixão. A solidão que se veste de amor para não ter frio. Dizem amo-te. Dizem amo-te apenas para que alguém não feche a porta por fora. Isso não é amor. É medo. Apenas o medo.

O amor não se cobra. Não se pode cobrar. Por isso, a Patrícia nunca foi uma prostituta. Não do amor.

Mas lá fora. A cidade lá fora. Toda a gente se vende.

Toda a gente.

A Margarida hesita. A caneta suspensa.

Vendem-se. No trabalho. O tempo trocado por nada. O conformismo dentro das casas. Ficam. Ficam lado a lado nas camas. Permanecem, mas já não estão lá.

A Margarida procura uma defesa. Mas isso não é vender o corpo por sexo?

Não é.

Mas é.

O corpo que se aluga ao desânimo. As queixas nos lençóis. Mulheres frias. Maridos insatisfeitos. Elas guardam a seda para a rua. Para o olhar de quem não importa. E em casa, o pijama de flanela. A Margarida baixa os olhos. O seu próprio pijama de flanela. O frio das casas. Quando só há o corpo e não há a vontade. É um negócio. Um mau negócio.

A rotina. O tempo, diz a Margarida. O tempo que gasta.

O desejo míngua. Se não lhe derem de comer, morre. É preciso procurar. Não ter de ser sempre. Não ter de ser nunca.

Fazer o que não se gosta? A Guida pergunta. A apreensão na voz. O medo do corpo.

Não. Aprender. Aprender a gostar. Ninguém sabe o sabor da manga sem a morder. O aspeto das enguias? Traz estranheza antes do gosto. A satisfação de ver o outro satisfeito. A entrega. Onde começa o amor e acaba a conveniência.

A Patrícia desvia o olhar. O teto. Há uma mancha no teto. Uma ilha. O Saramago. O casal dentro do barco. E o homem sobre a mulher. O missionário. Aquele que traz a fé. Que a impõe no escuro, deitado sobre o outro corpo. Como se fôssemos apenas isso. O sexo. O amor. Tudo reduzido ao peso de um corpo. À perpetuação. Apenas para que não se acabe.

O amor, o cativeiro de quem nunca se soube amar.

@almacaeira

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Reparos

Os miúdos passam a vida a fazer reparos. Apontam o dedo. Apontam a falha. Apontam o erro, a racha na parede, a pontuação incorreta, ou a falta dela.

A Rita, parou no tempo. Já não é miúda, mas faz isso no trabalho, com as restantes colegas; tem os olhos cravados no defeito. Pergunto-me, tantas vezes no silêncio das minhas próprias falhas, se o farão por maldade. Quero acreditar que não. Quero acreditar que é apenas medo.
Possivelmente, é isso que a Rita tem. Medo.
Diz saber, diz fazer, diz conhecer, mas limita-se a fazer reparos despropositados em vez de ensinar. É o medo aterrador da própria pequenez. Diminuem os outros para se sentirem maiores, na ilusão infantil de que a grandeza se mede por contraste, de que, para se ser um gigante, é preciso cortar as pernas a quem está ao lado. Pobre juventude, que tem olhos tão perfeitos e vê tão pouco.

Depois, o tempo acontece. O tempo acontece-nos em cima do corpo, das certezas e das presunções. Chegamos aos quarenta. Pisamos os cinquenta. A pele vinca-se, os joelhos estalam num protesto ruidoso e a visão... a visão desgasta-se. Encolhe. Os braços deixam de ser longos o suficiente para conseguirmos focar as letras pequeninas do mundo. Precisamos de afastar os papéis, de apertar os olhos, daquela ajuda embaraçosa das lentes que nos dizem, sem pudor, que já não somos novos.
Ficamos a ver pior. Fisicamente pior. Mas é aí, nesse ponto, no meio dessa névoa, dessa miopia irremediável dos dias, que passamos, por milagre, a ver muito mais. A ver o que importa. A ver por dentro.

É a metamorfose da idade: deixamos de fazer reparos para, finalmente, começarmos a reparar.
Reparamos no amanhecer e na sua beleza, antes de a cidade acordar. Reparamos na inclinação do sol a bater no reboco velho de uma casa qualquer. Reparamos no sorriso triste, quase invisível, de quem nos serve o café à pressa. Reparamos que um abraço demorado é o único lugar seguro do universo. A lupa que usávamos para procurar a imperfeição cai-nos das mãos cansadas. Já não queremos consertar as pessoas. Já não lhes fazemos reparos. Aceitamo-las. Aceitamos as imperfeições alheias porque já temos o corpo cheio das nossas. E, de repente, o milagre maior dá-se perante a nossa vista cansada: o vulgar torna-se raro. O banal ocupa o primeiro lugar no pódio. O simples café a dois... Tudo isso deixa de ser o cenário para passar a ser a vida inteira.
Já não precisamos de tornar os outros pequenos para sermos grandes. Precisamos apenas que a vida nos dê tempo para reparar nela, enquanto as falhas alheias deixam de ser erros e passam a ser os únicos sítios por onde a verdadeira luz consegue entrar.

As "Ritas" deste mundo deveriam sabê-lo. No entanto, sem os reparos, resta-lhes o silêncio; e no silêncio, temem o esquecimento, diminuídas na própria vulgaridade que tanto tentaram apontar nos outros.

@almacaeira

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