A constante do triângulo (Universal)

O texto explora a ideia de uma constante matemática que conecta triângulos a conceitos universais, como harmonia e eternidade. O autor propõe que o triângulo, presente em diversas culturas e ciências, reflete uma ordem cósmica. Ele discute relações geométricas e simbólicas, sugerindo que o triângulo é uma chave para compreender a realidade...

#Constante,#Triângulos,#Fórmula,#Validação

https://eternidade1.blogspot.com/2025/08/a-constante-do-triangulo-universal_99.html

Uma retrospectiva de 2014

Aqui no Orientando, as páginas para cada identidade são, em geral, separadas: cada uma vai relatar a história de uma única identidade, e poucas mencionam detalhes sobre o contexto onde cada identidade surgiu para além de alguém específique apresentando um termo e definindo-o com suas palavras.

Porém, identidades LGBTQIAPN+ não surgem espontaneamente: cada uma é construída com base em concepções já existentes. Um termo como neuorientade, por exemplo, não pode existir sem o conceito de inexistência de gênero, que como parte de uma identidade precisa ser uma oposição a existência de gêneros, mesmo em uma sociedade onde só se conhecem os gêneros homem e mulher.

Estes são exemplos mais óbvios. Nesta postagem, porém, eu não tenho como dizer com certeza o quanto dos desenvolvimentos elaborados aqui são espontâneos ou partem de contextos diferentes, e o quanto se devem a interações entre as mesmas comunidades. Eu conheço parte da história por ter participado de grupos com pessoas que fizeram parte delas, ou por ler blogs onde partes dessas histórias ocorreram, mas não consigo conectar todas as pessoas que cunharam termos importantes em 2014 entre si de forma concreta. Mesmo assim, houveram e haverão pessoas colocando todas essas figuras relevantes de 2014 como parte de um mesmo movimento. Esta postagem é sobre isso.

 

Termos descrevendo cisdissidência e heterodissidência antes de 2014

Biângulos, símbolo bissexual proposto em 1997 por Liz Nania.

Embora seja possível afirmar com segurança que a maior parte dos termos cunhados hoje em dia possuem suas origens na última década, isso não significa que antes dela não havia nenhuma diversidade de termos. Por exemplo:

Estes são alguns exemplos dos termos que existiam/estavam em circulação antes de 2014. Há outros que não foram mencionados aqui, mas, essencialmente, temos:

  • Cis e trans como modalidades de gênero;
  • Algumas identidades fora do binário homem/mulher, assim como discussão sobre elas, mas poucas especificações de como alguém pode ter gêneros diferentes de homem e de mulher, e experiências poligênero ou centrigênero com tendência de serem pensadas apenas de formas que contém ambos os gêneros binários;
  • Alguma especificação de atração de/por pessoas não-binárias, mas não muita (por exemplo, alguém que quer um termo que define sua atração por um gênero binário e gêneros não-binários teria que usar ou pôli ou alguma combinação de skolio com outra orientação, e não há termos que permitem a especificação de por quais identidades não-binárias alguém é capaz de sentir atração);
  • Pouca variedade de termos para descrever atração fluida ou indefinida;
  • Alguns termos a-espectrais surgindo, geralmente em publicações detalhadas em blogs ou discussões de fóruns, mas eles tendem a ter propósitos bem separados entre si.

Obviamente, termos que descrevem identidades não são indicativos de quantas experiências existem ou podem existir. O que acontece é que, quando divisões são formadas (heterossexual/homossexual, mulher/homem), isso abre espaço para que cada pessoa possa questionar o quanto se encaixa em cada um desses termos, e para discussões onde mais palavras precisam surgir para explicar similaridades ou diferenças entre experiências. Portanto, faz sentido que, com o passar do tempo, mais termos venham surgindo.

 

MOGAI (Marginalized Orientations, Gender Alignments and Intersex)

Bandeira MOGAI mais conhecida, provavelmente escolhida em discussões em Pride Flags For Us

Esta sigla foi desenvolvida em discussões no Tumblr, como esta, esta e esta. Como é possível perceber pelas datas, sua formação é datada do início de 2014, ainda que a pessoa creditada com a sigla exata não tenha certeza de onde está sua postagem original acerca disso.

A razão principal da sigla ter sido formada é se afastar de siglas formadas por listas de identidades (como LGBTQIAPN+) e da sigla GSM ou GSRM, pelo M significar “minorias” ao invés de grupos marginalizados/minorizados e por alegações da pessoa que cunhou tal sigla também querer incluir parafilias como “minorias sexuais” (e românticas, na versão com R).

A sigla MOGII também ficou em circulação por um tempo, mas a questão é que os “alinhamentos de gênero” (Gender Alignments) os quais foram inclusos em MOGAI não se tratavam do que conhecemos como alinhamento de gênero hoje, e sim de uma tentativa de definir modalidade de gênero (um termo que só foi cunhado 5 anos depois). “GI” (Gender Identities) foi um termo rejeitado porque, enquanto homem é uma identidade de gênero e existem homens trans, mulher também é uma identidade de gênero e existem mulheres cis; em questão de identidade de gênero por si só, mulheres são um grupo marginalizado, mas homens não.

É interessante notar que, mesmo que MOGAI tenha ficado com a reputação de ser só para identidades “não consagradas” – isto é, termos mais novos, termos que rejeitam tanto a cisgeneridade quanto a transgeneridade, identidades não-binárias mais específicas usadas por pouques, orientações que são consideradas impossíveis por quem só acredita em atração por homens, por mulheres ou por ambos estes gêneros, e por assim vai – não existiam tantos desses termos na época que a sigla foi cunhada. Era comum colocar toda a a-espectralidade “dentro do guarda-chuva assexual”, toda atração por múltiplos gêneros “dentro do guarda-chuva bissexual” e toda cisdissidência “dentro do guarda-chuva trans”: portanto, LGBTQIA+ não estaria longe de ser uma sigla completa, faltando apenas algumas pessoas com orientações indefinidas, fluidas ou definidas por atração de e/ou por pessoas não-binárias.

Mesmo assim, acredito que a criação da sigla MOGAI tenha aberto novas possibilidades: as pessoas não precisavam mais justificar conexões com termos existentes para descrever suas experiências. Por exemplo, alguém com atração fluida não precisaria justificar seu lugar na comunidade por meio de estar “dentro do guarda-chuva bi” ou “dentro do guarda-chuva assexual”: ter uma orientação heterodissidente por si só seria justificativa suficiente para inclusão.

Esta pode parecer uma questão superficial ou pedante, mas a questão é que invalidação de experiências incomuns ou pouco representadas é algo muito comum tanto dentro quanto fora de comunidades LGBTQIAPN+. Portanto, não é inconcebível que pessoas mais inseguras só tenham conseguido falar sobre suas experiências a partir do ponto em que haviam mais sinais de que elas seriam aceitas.

 

Blogs de cunhagem/arquivamento

Captura de tela da página /genders em MOGAI Archive em 12/12/2014. Fonte.

Embora pessoas LGBTQIAPN+ já se reunissem em fóruns e outras redes sociais, Tumblr facilitou bastante o compartilhamento de novos termos, tanto em comunicação direta com blogs que servem ou serviam para centralizar conhecimento sobre termos quanto pelo meio de “reblogar” postagens já feitas por outres. Também surgiram alguns blogs específicos para resolver dúvidas ou oferecer apoio sobre identidades específicas.

O blog Non-Binary Noise, que repostou vários termos relacionados com não-binaridade, começou em janeiro de 2013. Em tal ano, houveram postagens definindo os termos gênero-fluido, androginia, agênero, neutrois, bigênero, hijra, dois espíritos, gêneros não-binários e genderqueer, em termos de identidades de gênero ou questões similares.

Não houveram muitas postagens em 2014, mas, em 2015, mais de 40 novos termos foram definidos, incluindo muitos cunhados em 2014, como alexigênero, juxera, gênero-cinza, aporagênero, intergênero (com a definição de 2014 por actuallyintersex) e apogênero. Mesmo com a inatividade no ano de 2014, é possível perceber um aumento significativo na gama de identidades não-binárias disponíveis.

O Tumblr Pride Flags For Us foi capturado pela primeira vez na Wayback Machine por uma postagem feita em 13 de junho de 2014 sobre uma bandeira de orgulho hétero. Embora tenha sido refeito e depois deletado de vez posteriormente, foi neste blog que originaram vários termos e bandeiras, como poligênero-fluxo (20/06/2014), novi (06/07/2014), amicussexual (ao menos a bandeira é de 05/10/2014), anogênero (bandeiras publicadas em 28/10/2014) e demirromântique (bandeira publicada 30/09/2014).

O blog MOGAI Archive é, ou ao menos foi, um dos exemplos mais famosos de blogs que arquivaram termos. Embora só tenha funcionado por, no máximo, um ano, é por lá que foram divulgados termos como ambonec, duragênero, biexgênero, autigênero, cáli, vácuo (como orientação) e cas. Um documento contendo todas as identidades não-binárias listadas em MOGAI Archive em 23 de agosto de 2014 pode ser encontrado aqui.

Curiosamente, o Tumblr Pride Archive só esteve ativo durante os meses de julho e agosto de 2014, mas ele ajudou a divulgar dezenas de termos e bandeiras. Algumas das bandeiras feitas por Lyric, que administrava o blog, foram Gênero-Leão (Lyric também cunhou o termo em questão), leukogênero, inersgênero (termo mais conhecido como apagênero), paragênero, hemigênero e ignota/fray.

É possível que hajam outros exemplos, mas acredito que estes tenham sido os mais influentes. O Tumblr Heterosexual is not a default, por exemplo, tem vários termos arquivados, mas ele só começou a ser mais ativo a partir de janeiro de 2015 e não consigo lembrar de nenhum termo que tenha sido cunhado a partir de tal blog. Purrloin sucks arquivou várias identidades não-binárias publicadas em MOGAI Archive, mas o blog não tem muito além disso.

Em 2015, surgiram MOGAI Lexicon (que não existe mais) e Pride-Flags (que posteriormente também passou a responder perguntas no Tumblr via Ask Pride Color Schemes). Outros arquivos e blogs similares também foram surgindo nos anos seguintes, mas é interessante notar que não existiam muitos antes de 2014.

 

O efeito dominó

Tabela feita por Cor, epochryphal, explicando o motivo do termo ilyagênero ser diferente de outros que vieram anteriormente.

Ok, foi feita uma sigla que encorajou expressão pessoal ao descrever identidades LGBTQIAPN+ e haviam blogs dispostos a arquivar e espalhar esse vocabulário que foi surgindo. Porém, ainda não foi dado muito foco em relação a qual foi a progressão dos termos foram surgindo durante o ano de 2014.

Primeiramente, quero falar sobre o termo aliagênero, originalmente proposto em 20 de janeiro de 2014. A ideia era de descrever um gênero cuja sensação era de estar além dos conceitos de homem, mulher, andrógine ou gênero neutro.

Pelo termo ter sido mal interpretado como apropriativo, o termo aporagênero foi cunhado como uma forma supostamente mais ética de se ver como um gênero diferente de homem e mulher. Porém, foi espalhada a ideia de que “aporagênero é um termo baseado em aliagênero”, e, assim, tal termo também foi colocado como igualmente apropriativo, e, portanto, inapropriado.

O termo maverique (31/05/2014), que também descreve um gênero separado de homem, mulher, gênero neutro ou qualquer combinação entre tais gêneros foi cunhado pela mesma época que aporagênero, embora isso aparentemente tenha sido coincidência. O termo gênero-inconformista (16/06/2014) foi cunhado com base em maverique, com a diferença principal sendo que pessoas gênero-inconformista desafiam intencionalmente as normas de gênero.

Outro termo derivado da mesma árvore foi ilyagênero (30/12/2014), termo cunhado com a intenção de ser mais específico do que aporagênero ou maverique.

Voltando para o início do ano, temos gênero-estrela: um termo cunhado em 27 de janeiro de 2014 para descrever uma experiência de gênero tão desconhecida que seria alienígena ou não-humana, talvez como de uma estrela, por ser um gênero completamente distante dos gêneros binários e que ao mesmo tempo também parece poder ser uma neutralidade que abrange tanto feminilidade quanto masculinidade. Embora gênero-estrela tenha se tornado um exemplo de “identidade ridícula para odiar” na anglosfera (assim como a presença de gênero-fofo no Orientando incitou ódio e chacota contra esta identidade específica na lusosfera), e tenha tido popularidade suficiente para ter alguns blogs dedicados à identidade (como stargender support), não é um termo que parece ter sido muito citado como influência para a cunhagem de outras identidades não-binárias.

Dito isso, caelgênero (julho de 2014; bandeira de 2015) e gênero-astral (09/06/2016) são exemplos de identidades onde ao menos suas bandeiras provavelmente foram influenciadas por esta bandeira gênero-estrela publicada em Pride Flags For Us em 16 de abril de 2014, a qual foi posteriormente republicada em qualidade melhor em Pride-Flags.

Os termos colocados dentro do guarda-chuva chamado gêneros do zodíaco também começaram a ser cunhados em 2014, com gênero-Libra. Pride Archive, após publicar tal termo, chegou a fazer postagens sobre gênero-Áries, gênero-Virgem, gênero-Leão, gênero-Aquário, gênero-Câncer e gênero-Touro, o que coloca estes termos em 2014, mesmo que algumas das postagens originais cunhando tais termos tenham sido perdidas.

Algumas pessoas também começaram a publicar listas com cunhagens de identidades não-binárias, ao invés de se limitarem a uma identidade de cada vez. Curiosityismysin cunhou estetigênero e fisgênero em uma lista contendo outras 4 identidades. Os termos apogênero, egogênero, histrigênero e paragênero foram cunhados juntos. O termo xenogênero, que possivelmente se tornou o maior guarda-chuva de identidades não-binárias além de termos como não-binárie ou genderqueer, foi cunhado em uma lista com várias outras identidades, incluindo gênero-vácuo.

Os termos feminine in nature e masculine in nature também vieram de uma sugestão ao Pride Flags For Us publicada em 20 de julho de 2014. Estes conceitos geraram um modelo repetido para muitas outras qualidades, como autonomia de gênero e aporinidade, de formas que são tanto usadas como partes de orientações quanto como identidades de gênero.

Proqua e proquu surgiram como orientações feitas para pessoas não-binárias femininas e masculinas. São possivelmente alguns dos primeiros exemplos de orientações feitas para pessoas com identidades não-binárias específicas, e também de orientações feitas para que pessoas não-binárias usem, em geral: afinal, termos como fin/min e gine/andro eram abertos para pessoas binárias, enquanto cétero/medisso só ganhou a conotação de exclusividade para pessoas não-binárias por conta de preocupações com fetichização, ao invés de ter sido um termo pensado somente para quem era não-binárie.

Enquanto o termo demigênero tenha provavelmente surgido antes de 2014, termos como nanogênero, magigênero, pixelgênero, horogênero e duragênero provavelmente foram cunhados em 2014. Além disso, demigenderpalace e demigenders são ambos blogs demigênero focados em responder dúvidas/informar que só ficaram ativos em 2014 e 2015.

Proxvir e juxera (02/07/2014) também são outros termos relativamente conhecidos que surgiram em 2014. Assim como os termos do parágrafo anterior, estes facilitam estabelecer conexões com outras identidades já existentes para especificar experiências de gênero com mais sutileza, embora juxera e proxvir se resumam a estabelecer tais conexões com mulher e homem.

Autigênero já foi mencionado, mas os termos gênero-vago, arovague e acevague provavelmente também foram cunhados em 2014, assim como neurogênero. Estes termos abrem as portas para identidades que têm neurodivergência como pré-requisito. Naquela lista de termos publicados em MOGAI Archive, múltiplos outros neurogêneros aparecem, como corugênero, fascigênero, gênero-neblina, ludogênero, maestusgênero, narkissisgênero e nesciōgênero.

Em relação à fluidez de atração: a orientação mud provavelmente foi cunhada até meados de junho de 2014. Há este compartilhamento de MOGAI Archive apontando como data máxima o mês seguinte para a cunhagem de acefluxo e arofluxo, a qual inclusive referencia gênero-fluxo, outro termo provavelmente cunhado em 2014. Esta postagem sobre omnigay também aponta que é provável que o termo tenha sido cunhado no mesmo ano.

Acredito que isto já dê uma ideia do quanto cada vez mais termos foram cunhados durante este período. Além de casos específicos, acho que é possível perceber os seguintes padrões:

  • Pessoas tendo ideias para termos a partir de outros que também recém foram cunhados;
  • Pessoas cunhando termos como forma de resistência contra discursos queermísicos;
  • Pessoas querendo evitar conotações de termos anteriores, seja por não se verem como partes daquelas comunidades, seja por acreditarem que os termos anteriores eram problemáticos a ponto de serem evitados completamente;
  • Socialização a partir da cunhagem de termos, por meio de discussões intracomunidade, participar de esforços de arquivamento e afins.
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    A comunidade lusófona

    “Bolo colorido dos gêneros”, gráfico de Cari Rez Lobo feito com a ajuda de sues amigues publicado no Tumblr Espectrometria Não-Binária em outubro de 2014. Embora seja interessante e tenha valor histórico, é importante ressaltar que gráficos como esse tendem a ser reducionistas e/ou nocivos em certos pontos (como a recomendação do termo “terceiro gênero”), e que é importante conhecer bem o contexto de cada informação antes de repassar gráficos sem ressalvas só por serem bonitos.

    O Tumblr Espectrometria Não-Binária só teve atividade em 2014 e 2015. A Wiki Diversidades, originalmente Wiki Identidades, também começou em 2014.

    Em tais espaços, foram promovidas algumas identidades não-binárias, como as presentes nesta revisão de 18 de dezembro. Gráficos como este de símbolos de gênero e este explicando espectros de gênero também foram publicados em 2014.

    A publicação Guia para a Linguagem Oral Não-binária ou Neutra (PT-BR) não oferece alguma forma resumida de explicitar preferências da mesma forma que o modelo artigo/pronome/final de palavra, mas demonstra diversas opções de pronomes (el, ilu, elu, ili) e de finais de palavra (e, nada/apóstrofo, i), além do neoartigo le.

    Sei que também existiam comunidades de Facebook acerca da não-binaridade, que inclusive geraram ou influenciaram tais plataformas e publicações, mas, como alguém que nunca teve Facebook, nunca tive muito contato com tal parte da comunidade. (Sintam-se livres para preencher esta ou outras lacunas nos comentários!)

    De qualquer forma, o foco parece ter sido reunir identidades cunhadas na anglosfera, e não a cunhagem de termos próprios, com a exceção da questão da neolinguagem. A quantidade de neutralidade em si como um aspecto de identidades de gênero, a qual aparece no gráfico acima, parece ser um conceito original, mas não parecem haver publicações mais detalhadas sobre o conceito.

     

    A magia continuou?

    Cunhagem do termo hestiane, em 2021 no Twitter. Captura de tela daqui.

    Como já mencionei, alguns dos blogs da época ainda estão ativos, e outros espaços também foram surgindo. Alguns exemplos de contas de Tumblr que estão arquivando postagens atualmente são radiomogai e centlpede, mas projetos como LGBTQIA+ Wiki e Gender Wiki facilitam a contribuição comunitária em comparação com espaços no Tumblr.

    Termos ainda são cunhados com muita frequência, e não só no Tumblr (ainda que seja mais fácil pesquisar no Tumblr do que no Instagram ou no X). Já não estamos mais numa era onde é fácil acompanhar todas as cunhagens já feitas, porque elas são feitas de forma espalhada e independente. Os termos em questão acabam se perdendo mais facilmente por conta disso (de modo geral), mas também é mais comum ver pessoas não se importando com informar outres sobre os termos que usam ou cunham: listas repostando definições são menos comuns, por exemplo.

    Dito isso, não acredito que faça sentido chamar os termos cunhados nesta época de “mortos”. Embora alguns nunca tenham obtido grande popularidade, muitos dos termos cunhados no meio da década de 10 são justamente os que estão arquivados em mais lugares.

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    #2014 #história #identidadesIncomuns #lesbiTwt #OrientandoOrg #retrospectiva #termosIncomuns #validação

    https://orientando.org/2024/12/uma-retrospectiva-de-2014/

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    Quer incluir pessoas não-binárias na língua portuguesa? Priorize o respeito à linguagem pessoal!

    Bandeira neopronominal (de quem usa neopronomes)

    Há uma certa tendência de falar sobre “linguagem neutra” ou “linguagem não-binária” em círculos preocupados com questões de justiça social atualmente. Uso os termos entre aspas porque eles tendem a ser usados mais ou menos como substitutos para neolinguagem: isto é, a existência de palavras que se encontram fora dos gêneros gramaticais impostos pela língua padrão.

    Geralmente essas discussões são em torno de usar alguma forma de neolinguagem como linguagem neutra/genérica, que aqui vou definir como a linguagem que deve ser utilizada para pessoas/seres cujos conjuntos de linguagem pessoal são desconhecidos e grupos onde presume-se que membres usem conjuntos de linguagem pessoal diferentes. Então, por exemplo, ao invés de alguém usar o/ele/o como linguagem neutra/genérica, como na oração “aqueles alunos chegaram atrasados“, alguém poderia usar e/elu/e, como em “aquelus alunes chegaram atrasades, i/il/i, como em “aquils alunis chegaram atrasadis, ou qualquer outro conjunto envolvendo neolinguagem.

    (Conjunto de linguagem se refere a uma espécie de gênero gramatical, mas é um termo mais flexível por ser compatível com quem quer misturar gêneros gramaticais diferentes. Conjunto de linguagem pessoal é um conjunto de linguagem que deve ser utilizado para se referir a alguém, e então é possível dizer que tal alguém “usa” certo conjunto ou certos conjuntos de linguagem. Mais sobre isso aqui, aqui ou aqui.)

    A utilização de neolinguagem como forma de linguagem neutra/genérica é bem-vinda por muites, porque esta combate a ideia de que um conjunto de linguagem geralmente associado com masculinidade e/ou com ser homem (o/ele/o) deva ser o padrão, e também por oferecer uma alternativa mais fácil à inclusão de todes sem que tenham que ser feitos contornos para que o uso de a/ela/a ou de o/ele/o seja mais justificado (como em “todas as pessoas“, “minhas amizades” ou “alguém que trabalha com pintura” ao invés do uso mais problemático de “todos“, “meus amigos” ou “algum pintor“). A integração de um gênero gramatical que se propõe a ser neutro dentro da língua padrão será um passo à frente tanto em relação a facilitar essa questão quanto em relação a fornecer um conjunto de linguagem pessoal visto como neutro mas amplamente aceito, o qual pode assim ser usado por pessoas não-binárias que só querem ser referidas de qualquer forma neutra/genérica ou para se referir a crianças que ainda não desenvolveram suas próprias preferências de linguagem pessoal de forma que não impõe a elas conjuntos de linguagem binários de forma geralmente cissexista e diadista.

    Porém, o foco único em padronizar um gênero gramatical neutro muitas vezes deixa de lado a necessidade mais importante de não maldenominar pessoas cisdissidentes e/ou inconformistas de linguagem. De fornecer o respeito básico do uso de pronomes, artigos e outras partes de um conjunto de linguagem que cada pessoa quer que sejam utilizades para si, assim como quem usa a/ela/a ou o/ele/o e possui certa aparência aceitável dentro da sociedade cissexista tem seus conjuntos de linguagem respeitados.

    Concordo que o uso de o/ele/o como linguagem neutra/genérica deva ser evitado. Porém, também não acho que isto seja um problema maior do que outras expressões problemáticas comuns no dia-a-dia, como o uso constante de xingamentos capacitistas de forma extremamente casual, de termos racistas para descrever pessoas, culturas, grupos étnicos ou afins, da utilização de termos neutros para descrever grupos marginalizados como gorde ou gay como descrições negativas e por assim vai. Eu defendo o combate a qualquer forma de linguagem opressiva, mas acho ainda mais importante evitar e acabar com formas de violência mais diretas contra pessoas marginalizadas.

    Só que o que vejo em debates acerca de qual deve ser o novo gênero gramatical neutro ou se deve existir um novo gênero gramatical neutro é uma falta de consideração com pessoas que dependem de neolinguagem não (só) como uma forma de expressar inclusividade, mas (também) como uma forma de ter conjuntos de linguagem com os quais não se sentem maldenominadas; de ter conjuntos de linguagem que sentem que as representam quando os conjuntos dentro da língua padrão se mostram insuficientes.

    Talvez isso pareça fútil para pessoas binárias – especialmente cis – as quais possuem gamas enormes de formas de encontrar validação interna e externa para suas identidades de gênero. Porém, no caso de pessoas não-binárias, muitas vezes a linguagem pessoal é uma das únicas formas que temos para buscar euforia de gênero ou combater inseguranças em relação a não sermos vistes da forma certa. E maldenominação não deixa de poder machucar só porque uma pessoa trans está deixando de ser referida por um conjunto como ê/elu/e ou ly/ily/y ao invés de a/ela/a ou o/ele/o.

    Enfim, quando alguém diz que deve existir apenas um conjunto de linguagem válido que inclui neolinguagem e que o resto das possibilidades não presta, isso é um ataque muito mais direto a pessoas inconformistas de linguagem do que o uso de o/ele/o como linguagem neutra/genérica. Quando alguém diz que a única importância da neolinguagem é a formação de um gênero gramatical neutro a ser incluso na norma padrão da língua portuguesa, isso exclui de forma bem mais direta a existência de pessoas que usam neolinguagem em seus conjuntos de linguagem pessoais do que o uso de o/ele/o para se referir a grupos com conjuntos de linguagem pessoais diferentes.

    Pessoas não-binárias que não usam (apenas) a/ela/a, o/ele/o, -/-/- ou algum conjunto específico envolvendo neolinguagem já existem. Eu estou entre essas pessoas, assim como outres que conheço. Nós não vamos deixar de existir quando/se houver um gênero gramatical neutro incluso na língua padrão, até porque já nos identificamos usando conjuntos de linguagem pessoais que diferem dos padrões da língua sem aguardar a permissão de ninguém. Nem todo mundo quer expressar neutralidade e/ou indeterminação com a neolinguagem inclusa em seu(s) conjunto(s) de linguagem pessoal(is). Mesmo quem quer expressar tais características pode não estar confortável com os elementos do conjunto escolhido como neutro por qualquer entidade.

    A diversidade dos conjuntos que contém neolinguagem não é um problema teórico que pode ser resolvido caso seja decidido um gênero gramatical neutro na língua padrão o mais rápido possível. É uma realidade que precisa ser considerada em qualquer proposta de reavaliação de como se ensina a língua portuguesa de forma que inclui neolinguagem.

    Antes de querer debater sobre a inclusão de um gênero gramatical oficial novo, é importante levar em consideração a questão de não impor qualquer conjunto de linguagem em quem não quer ser referide com o uso de tal conjunto, e isso inclui qualquer conjunto de linguagem visto como neutro/genérico. Se a proposta é incluir melhor pessoas não-binárias na língua, é importante não agir como se apenas um dos conjuntos de linguagem usados pelo grupo existisse.

    Entendo querer debater sobre qual conjunto é mais adequado como neutro/genérico, levando em consideração questões como a facilidade de ensinar ou de entender o conjunto e o quanto ele parece visualmente ou sonoramente algo “mais masculino” e/ou “mais feminino” do que neutro. Tais discussões podem ser interessantes e saudáveis. Porém, a partir do momento onde são circulades mentiras sobre o quanto outros conjuntos são inacessíveis e/ou ataques/chacota contra elementos neolinguísticos usados por outras pessoas como parte de seus conjuntos de linguagem pessoal, isso deixa de ser apenas uma discussão teórica sobre a inclusão de um gênero gramatical neutro na língua padrão para também impor de forma violenta quais tratamentos pessoas não-binárias podem ou não podem aceitar para si mesmas. E isso a sociedade cissexista já faz; não precisamos de “aliades/camaradas bem intencionades” para isso.

    #apagamento #cissexismo #exilinguismo #exorlinguismo #exorsexismo #linguagemPessoal #neolinguagem #recursosDeLinguagem #recursosNCL #validação

    https://orientando.org/2023/07/quer-incluir-pessoas-nao-binarias-na-lingua-portuguesa-priorize-o-respeito-a-linguagem-pessoal/

    neoprontrans: a term for anyone who both identifies as trans (binary or nonbinary) and uses neopronouns

    neopronominal: a term for those who use neopronouns neoprontrans flag was requested by anon! the first flag is five stripes like both the neopronoun user and trans flags, with colors taken from said...

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