Uma retrospectiva de 2014

Aqui no Orientando, as páginas para cada identidade são, em geral, separadas: cada uma vai relatar a história de uma única identidade, e poucas mencionam detalhes sobre o contexto onde cada identidade surgiu para além de alguém específique apresentando um termo e definindo-o com suas palavras.

Porém, identidades LGBTQIAPN+ não surgem espontaneamente: cada uma é construída com base em concepções já existentes. Um termo como neuorientade, por exemplo, não pode existir sem o conceito de inexistência de gênero, que como parte de uma identidade precisa ser uma oposição a existência de gêneros, mesmo em uma sociedade onde só se conhecem os gêneros homem e mulher.

Estes são exemplos mais óbvios. Nesta postagem, porém, eu não tenho como dizer com certeza o quanto dos desenvolvimentos elaborados aqui são espontâneos ou partem de contextos diferentes, e o quanto se devem a interações entre as mesmas comunidades. Eu conheço parte da história por ter participado de grupos com pessoas que fizeram parte delas, ou por ler blogs onde partes dessas histórias ocorreram, mas não consigo conectar todas as pessoas que cunharam termos importantes em 2014 entre si de forma concreta. Mesmo assim, houveram e haverão pessoas colocando todas essas figuras relevantes de 2014 como parte de um mesmo movimento. Esta postagem é sobre isso.

 

Termos descrevendo cisdissidência e heterodissidência antes de 2014

Biângulos, símbolo bissexual proposto em 1997 por Liz Nania.

Embora seja possível afirmar com segurança que a maior parte dos termos cunhados hoje em dia possuem suas origens na última década, isso não significa que antes dela não havia nenhuma diversidade de termos. Por exemplo:

Estes são alguns exemplos dos termos que existiam/estavam em circulação antes de 2014. Há outros que não foram mencionados aqui, mas, essencialmente, temos:

  • Cis e trans como modalidades de gênero;
  • Algumas identidades fora do binário homem/mulher, assim como discussão sobre elas, mas poucas especificações de como alguém pode ter gêneros diferentes de homem e de mulher, e experiências poligênero ou centrigênero com tendência de serem pensadas apenas de formas que contém ambos os gêneros binários;
  • Alguma especificação de atração de/por pessoas não-binárias, mas não muita (por exemplo, alguém que quer um termo que define sua atração por um gênero binário e gêneros não-binários teria que usar ou pôli ou alguma combinação de skolio com outra orientação, e não há termos que permitem a especificação de por quais identidades não-binárias alguém é capaz de sentir atração);
  • Pouca variedade de termos para descrever atração fluida ou indefinida;
  • Alguns termos a-espectrais surgindo, geralmente em publicações detalhadas em blogs ou discussões de fóruns, mas eles tendem a ter propósitos bem separados entre si.

Obviamente, termos que descrevem identidades não são indicativos de quantas experiências existem ou podem existir. O que acontece é que, quando divisões são formadas (heterossexual/homossexual, mulher/homem), isso abre espaço para que cada pessoa possa questionar o quanto se encaixa em cada um desses termos, e para discussões onde mais palavras precisam surgir para explicar similaridades ou diferenças entre experiências. Portanto, faz sentido que, com o passar do tempo, mais termos venham surgindo.

 

MOGAI (Marginalized Orientations, Gender Alignments and Intersex)

Bandeira MOGAI mais conhecida, provavelmente escolhida em discussões em Pride Flags For Us

Esta sigla foi desenvolvida em discussões no Tumblr, como esta, esta e esta. Como é possível perceber pelas datas, sua formação é datada do início de 2014, ainda que a pessoa creditada com a sigla exata não tenha certeza de onde está sua postagem original acerca disso.

A razão principal da sigla ter sido formada é se afastar de siglas formadas por listas de identidades (como LGBTQIAPN+) e da sigla GSM ou GSRM, pelo M significar “minorias” ao invés de grupos marginalizados/minorizados e por alegações da pessoa que cunhou tal sigla também querer incluir parafilias como “minorias sexuais” (e românticas, na versão com R).

A sigla MOGII também ficou em circulação por um tempo, mas a questão é que os “alinhamentos de gênero” (Gender Alignments) os quais foram inclusos em MOGAI não se tratavam do que conhecemos como alinhamento de gênero hoje, e sim de uma tentativa de definir modalidade de gênero (um termo que só foi cunhado 5 anos depois). “GI” (Gender Identities) foi um termo rejeitado porque, enquanto homem é uma identidade de gênero e existem homens trans, mulher também é uma identidade de gênero e existem mulheres cis; em questão de identidade de gênero por si só, mulheres são um grupo marginalizado, mas homens não.

É interessante notar que, mesmo que MOGAI tenha ficado com a reputação de ser só para identidades “não consagradas” – isto é, termos mais novos, termos que rejeitam tanto a cisgeneridade quanto a transgeneridade, identidades não-binárias mais específicas usadas por pouques, orientações que são consideradas impossíveis por quem só acredita em atração por homens, por mulheres ou por ambos estes gêneros, e por assim vai – não existiam tantos desses termos na época que a sigla foi cunhada. Era comum colocar toda a a-espectralidade “dentro do guarda-chuva assexual”, toda atração por múltiplos gêneros “dentro do guarda-chuva bissexual” e toda cisdissidência “dentro do guarda-chuva trans”: portanto, LGBTQIA+ não estaria longe de ser uma sigla completa, faltando apenas algumas pessoas com orientações indefinidas, fluidas ou definidas por atração de e/ou por pessoas não-binárias.

Mesmo assim, acredito que a criação da sigla MOGAI tenha aberto novas possibilidades: as pessoas não precisavam mais justificar conexões com termos existentes para descrever suas experiências. Por exemplo, alguém com atração fluida não precisaria justificar seu lugar na comunidade por meio de estar “dentro do guarda-chuva bi” ou “dentro do guarda-chuva assexual”: ter uma orientação heterodissidente por si só seria justificativa suficiente para inclusão.

Esta pode parecer uma questão superficial ou pedante, mas a questão é que invalidação de experiências incomuns ou pouco representadas é algo muito comum tanto dentro quanto fora de comunidades LGBTQIAPN+. Portanto, não é inconcebível que pessoas mais inseguras só tenham conseguido falar sobre suas experiências a partir do ponto em que haviam mais sinais de que elas seriam aceitas.

 

Blogs de cunhagem/arquivamento

Captura de tela da página /genders em MOGAI Archive em 12/12/2014. Fonte.

Embora pessoas LGBTQIAPN+ já se reunissem em fóruns e outras redes sociais, Tumblr facilitou bastante o compartilhamento de novos termos, tanto em comunicação direta com blogs que servem ou serviam para centralizar conhecimento sobre termos quanto pelo meio de “reblogar” postagens já feitas por outres. Também surgiram alguns blogs específicos para resolver dúvidas ou oferecer apoio sobre identidades específicas.

O blog Non-Binary Noise, que repostou vários termos relacionados com não-binaridade, começou em janeiro de 2013. Em tal ano, houveram postagens definindo os termos gênero-fluido, androginia, agênero, neutrois, bigênero, hijra, dois espíritos, gêneros não-binários e genderqueer, em termos de identidades de gênero ou questões similares.

Não houveram muitas postagens em 2014, mas, em 2015, mais de 40 novos termos foram definidos, incluindo muitos cunhados em 2014, como alexigênero, juxera, gênero-cinza, aporagênero, intergênero (com a definição de 2014 por actuallyintersex) e apogênero. Mesmo com a inatividade no ano de 2014, é possível perceber um aumento significativo na gama de identidades não-binárias disponíveis.

O Tumblr Pride Flags For Us foi capturado pela primeira vez na Wayback Machine por uma postagem feita em 13 de junho de 2014 sobre uma bandeira de orgulho hétero. Embora tenha sido refeito e depois deletado de vez posteriormente, foi neste blog que originaram vários termos e bandeiras, como poligênero-fluxo (20/06/2014), novi (06/07/2014), amicussexual (ao menos a bandeira é de 05/10/2014), anogênero (bandeiras publicadas em 28/10/2014) e demirromântique (bandeira publicada 30/09/2014).

O blog MOGAI Archive é, ou ao menos foi, um dos exemplos mais famosos de blogs que arquivaram termos. Embora só tenha funcionado por, no máximo, um ano, é por lá que foram divulgados termos como ambonec, duragênero, biexgênero, autigênero, cáli, vácuo (como orientação) e cas. Um documento contendo todas as identidades não-binárias listadas em MOGAI Archive em 23 de agosto de 2014 pode ser encontrado aqui.

Curiosamente, o Tumblr Pride Archive só esteve ativo durante os meses de julho e agosto de 2014, mas ele ajudou a divulgar dezenas de termos e bandeiras. Algumas das bandeiras feitas por Lyric, que administrava o blog, foram Gênero-Leão (Lyric também cunhou o termo em questão), leukogênero, inersgênero (termo mais conhecido como apagênero), paragênero, hemigênero e ignota/fray.

É possível que hajam outros exemplos, mas acredito que estes tenham sido os mais influentes. O Tumblr Heterosexual is not a default, por exemplo, tem vários termos arquivados, mas ele só começou a ser mais ativo a partir de janeiro de 2015 e não consigo lembrar de nenhum termo que tenha sido cunhado a partir de tal blog. Purrloin sucks arquivou várias identidades não-binárias publicadas em MOGAI Archive, mas o blog não tem muito além disso.

Em 2015, surgiram MOGAI Lexicon (que não existe mais) e Pride-Flags (que posteriormente também passou a responder perguntas no Tumblr via Ask Pride Color Schemes). Outros arquivos e blogs similares também foram surgindo nos anos seguintes, mas é interessante notar que não existiam muitos antes de 2014.

 

O efeito dominó

Tabela feita por Cor, epochryphal, explicando o motivo do termo ilyagênero ser diferente de outros que vieram anteriormente.

Ok, foi feita uma sigla que encorajou expressão pessoal ao descrever identidades LGBTQIAPN+ e haviam blogs dispostos a arquivar e espalhar esse vocabulário que foi surgindo. Porém, ainda não foi dado muito foco em relação a qual foi a progressão dos termos foram surgindo durante o ano de 2014.

Primeiramente, quero falar sobre o termo aliagênero, originalmente proposto em 20 de janeiro de 2014. A ideia era de descrever um gênero cuja sensação era de estar além dos conceitos de homem, mulher, andrógine ou gênero neutro.

Pelo termo ter sido mal interpretado como apropriativo, o termo aporagênero foi cunhado como uma forma supostamente mais ética de se ver como um gênero diferente de homem e mulher. Porém, foi espalhada a ideia de que “aporagênero é um termo baseado em aliagênero”, e, assim, tal termo também foi colocado como igualmente apropriativo, e, portanto, inapropriado.

O termo maverique (31/05/2014), que também descreve um gênero separado de homem, mulher, gênero neutro ou qualquer combinação entre tais gêneros foi cunhado pela mesma época que aporagênero, embora isso aparentemente tenha sido coincidência. O termo gênero-inconformista (16/06/2014) foi cunhado com base em maverique, com a diferença principal sendo que pessoas gênero-inconformista desafiam intencionalmente as normas de gênero.

Outro termo derivado da mesma árvore foi ilyagênero (30/12/2014), termo cunhado com a intenção de ser mais específico do que aporagênero ou maverique.

Voltando para o início do ano, temos gênero-estrela: um termo cunhado em 27 de janeiro de 2014 para descrever uma experiência de gênero tão desconhecida que seria alienígena ou não-humana, talvez como de uma estrela, por ser um gênero completamente distante dos gêneros binários e que ao mesmo tempo também parece poder ser uma neutralidade que abrange tanto feminilidade quanto masculinidade. Embora gênero-estrela tenha se tornado um exemplo de “identidade ridícula para odiar” na anglosfera (assim como a presença de gênero-fofo no Orientando incitou ódio e chacota contra esta identidade específica na lusosfera), e tenha tido popularidade suficiente para ter alguns blogs dedicados à identidade (como stargender support), não é um termo que parece ter sido muito citado como influência para a cunhagem de outras identidades não-binárias.

Dito isso, caelgênero (julho de 2014; bandeira de 2015) e gênero-astral (09/06/2016) são exemplos de identidades onde ao menos suas bandeiras provavelmente foram influenciadas por esta bandeira gênero-estrela publicada em Pride Flags For Us em 16 de abril de 2014, a qual foi posteriormente republicada em qualidade melhor em Pride-Flags.

Os termos colocados dentro do guarda-chuva chamado gêneros do zodíaco também começaram a ser cunhados em 2014, com gênero-Libra. Pride Archive, após publicar tal termo, chegou a fazer postagens sobre gênero-Áries, gênero-Virgem, gênero-Leão, gênero-Aquário, gênero-Câncer e gênero-Touro, o que coloca estes termos em 2014, mesmo que algumas das postagens originais cunhando tais termos tenham sido perdidas.

Algumas pessoas também começaram a publicar listas com cunhagens de identidades não-binárias, ao invés de se limitarem a uma identidade de cada vez. Curiosityismysin cunhou estetigênero e fisgênero em uma lista contendo outras 4 identidades. Os termos apogênero, egogênero, histrigênero e paragênero foram cunhados juntos. O termo xenogênero, que possivelmente se tornou o maior guarda-chuva de identidades não-binárias além de termos como não-binárie ou genderqueer, foi cunhado em uma lista com várias outras identidades, incluindo gênero-vácuo.

Os termos feminine in nature e masculine in nature também vieram de uma sugestão ao Pride Flags For Us publicada em 20 de julho de 2014. Estes conceitos geraram um modelo repetido para muitas outras qualidades, como autonomia de gênero e aporinidade, de formas que são tanto usadas como partes de orientações quanto como identidades de gênero.

Proqua e proquu surgiram como orientações feitas para pessoas não-binárias femininas e masculinas. São possivelmente alguns dos primeiros exemplos de orientações feitas para pessoas com identidades não-binárias específicas, e também de orientações feitas para que pessoas não-binárias usem, em geral: afinal, termos como fin/min e gine/andro eram abertos para pessoas binárias, enquanto cétero/medisso só ganhou a conotação de exclusividade para pessoas não-binárias por conta de preocupações com fetichização, ao invés de ter sido um termo pensado somente para quem era não-binárie.

Enquanto o termo demigênero tenha provavelmente surgido antes de 2014, termos como nanogênero, magigênero, pixelgênero, horogênero e duragênero provavelmente foram cunhados em 2014. Além disso, demigenderpalace e demigenders são ambos blogs demigênero focados em responder dúvidas/informar que só ficaram ativos em 2014 e 2015.

Proxvir e juxera (02/07/2014) também são outros termos relativamente conhecidos que surgiram em 2014. Assim como os termos do parágrafo anterior, estes facilitam estabelecer conexões com outras identidades já existentes para especificar experiências de gênero com mais sutileza, embora juxera e proxvir se resumam a estabelecer tais conexões com mulher e homem.

Autigênero já foi mencionado, mas os termos gênero-vago, arovague e acevague provavelmente também foram cunhados em 2014, assim como neurogênero. Estes termos abrem as portas para identidades que têm neurodivergência como pré-requisito. Naquela lista de termos publicados em MOGAI Archive, múltiplos outros neurogêneros aparecem, como corugênero, fascigênero, gênero-neblina, ludogênero, maestusgênero, narkissisgênero e nesciōgênero.

Em relação à fluidez de atração: a orientação mud provavelmente foi cunhada até meados de junho de 2014. Há este compartilhamento de MOGAI Archive apontando como data máxima o mês seguinte para a cunhagem de acefluxo e arofluxo, a qual inclusive referencia gênero-fluxo, outro termo provavelmente cunhado em 2014. Esta postagem sobre omnigay também aponta que é provável que o termo tenha sido cunhado no mesmo ano.

Acredito que isto já dê uma ideia do quanto cada vez mais termos foram cunhados durante este período. Além de casos específicos, acho que é possível perceber os seguintes padrões:

  • Pessoas tendo ideias para termos a partir de outros que também recém foram cunhados;
  • Pessoas cunhando termos como forma de resistência contra discursos queermísicos;
  • Pessoas querendo evitar conotações de termos anteriores, seja por não se verem como partes daquelas comunidades, seja por acreditarem que os termos anteriores eram problemáticos a ponto de serem evitados completamente;
  • Socialização a partir da cunhagem de termos, por meio de discussões intracomunidade, participar de esforços de arquivamento e afins.
  •  

    A comunidade lusófona

    “Bolo colorido dos gêneros”, gráfico de Cari Rez Lobo feito com a ajuda de sues amigues publicado no Tumblr Espectrometria Não-Binária em outubro de 2014. Embora seja interessante e tenha valor histórico, é importante ressaltar que gráficos como esse tendem a ser reducionistas e/ou nocivos em certos pontos (como a recomendação do termo “terceiro gênero”), e que é importante conhecer bem o contexto de cada informação antes de repassar gráficos sem ressalvas só por serem bonitos.

    O Tumblr Espectrometria Não-Binária só teve atividade em 2014 e 2015. A Wiki Diversidades, originalmente Wiki Identidades, também começou em 2014.

    Em tais espaços, foram promovidas algumas identidades não-binárias, como as presentes nesta revisão de 18 de dezembro. Gráficos como este de símbolos de gênero e este explicando espectros de gênero também foram publicados em 2014.

    A publicação Guia para a Linguagem Oral Não-binária ou Neutra (PT-BR) não oferece alguma forma resumida de explicitar preferências da mesma forma que o modelo artigo/pronome/final de palavra, mas demonstra diversas opções de pronomes (el, ilu, elu, ili) e de finais de palavra (e, nada/apóstrofo, i), além do neoartigo le.

    Sei que também existiam comunidades de Facebook acerca da não-binaridade, que inclusive geraram ou influenciaram tais plataformas e publicações, mas, como alguém que nunca teve Facebook, nunca tive muito contato com tal parte da comunidade. (Sintam-se livres para preencher esta ou outras lacunas nos comentários!)

    De qualquer forma, o foco parece ter sido reunir identidades cunhadas na anglosfera, e não a cunhagem de termos próprios, com a exceção da questão da neolinguagem. A quantidade de neutralidade em si como um aspecto de identidades de gênero, a qual aparece no gráfico acima, parece ser um conceito original, mas não parecem haver publicações mais detalhadas sobre o conceito.

     

    A magia continuou?

    Cunhagem do termo hestiane, em 2021 no Twitter. Captura de tela daqui.

    Como já mencionei, alguns dos blogs da época ainda estão ativos, e outros espaços também foram surgindo. Alguns exemplos de contas de Tumblr que estão arquivando postagens atualmente são radiomogai e centlpede, mas projetos como LGBTQIA+ Wiki e Gender Wiki facilitam a contribuição comunitária em comparação com espaços no Tumblr.

    Termos ainda são cunhados com muita frequência, e não só no Tumblr (ainda que seja mais fácil pesquisar no Tumblr do que no Instagram ou no X). Já não estamos mais numa era onde é fácil acompanhar todas as cunhagens já feitas, porque elas são feitas de forma espalhada e independente. Os termos em questão acabam se perdendo mais facilmente por conta disso (de modo geral), mas também é mais comum ver pessoas não se importando com informar outres sobre os termos que usam ou cunham: listas repostando definições são menos comuns, por exemplo.

    Dito isso, não acredito que faça sentido chamar os termos cunhados nesta época de “mortos”. Embora alguns nunca tenham obtido grande popularidade, muitos dos termos cunhados no meio da década de 10 são justamente os que estão arquivados em mais lugares.

    É possível apoiar xe autore desta publicação via Apoia-se, compra de produtos estampados ou outros métodos.

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    https://orientando.org/2024/12/uma-retrospectiva-de-2014/

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    Alguns termos cunhados em 2023

    Boas vindas ao quarto ano seguido de postagens que apresentam certas identidades que foram cunhadas no ano que recém passou!

    Como sempre, esta é apenas uma pequena parcela do que o ano de 2023 teve a oferecer em relação a cunhagens. Epikulupu, neopronouns e ryanyflags são alguns exemplos de Tumblrs que publicaram uma porção de cunhagens novas durante o ano, enquanto r/XenogendersAndMore e LGBTQIA+ Wiki são alguns exemplos de lugares de participação coletiva onde vários termos são publicados.

    Também quero ressaltar novamente que o advento de terminologia mais específica não tem o objetivo nem de obrigar pessoas a largarem os rótulos que já usam, nem de obrigar pessoas a adicionarem novos termos às suas listas e nem de colocarem termos mais comuns ou gerais como “ultrapassados”. Para saber mais sobre isso, há dois textos mais antigos por aqui que já tratam desse assunto: “Por que usar [y] ao invés de [x]?”A culpa des excluídes.

    Bandeira fictopersonen

    Fictopersonen

    O primeiro termo desta lista foi cunhado em 3 de fevereiro por epikulupu no Tumblr a pedido de uma pessoa anônima.

    Ele é definido como um gênero relacionado à personalidade de ume personagem fictície.

    Ficto tem relação com ficcional, enquanto personen provavelmente se refere à palavra pessoas na língua alemã.

    Aviamasculine

    Bandeira aviamasculina

    Este termo foi cunhado em 5 de abril por Reign, mogai-sunflowers no Tumblr, a pedido de Atticus-Kirby, fagdykefrank na mesma rede.

    Ele se refere a um gênero masculino da mesma forma que pássaros experienciam masculinidade. Isso porque é comum que pássaros “machos” sejam chamativos e/ou coloridos e tentem chamar a atenção de parceires em potencial por meio de danças e cantos.

    O termo original é aviamasc, e pode ser viável utilizá-lo assim na lusosfera também, mas decidi por traduzi-lo utilizando uma forma mais completa do sufixo. Desta forma, seu final de palavra é flexível: uma pessoa seria aviamasculina, um grupo seria aviamasculino, etc.

    Gênero-ponte, pontegênero ou ponte

    Em 17 de abril, Nil (kitgay em write.as) publicou um texto detalhando o que este xenogênero cobre. Ele pode ser lido na íntegra aqui, e acredito que dê pra resumir alguém que possui esta identidade de gênero como:

    • Alguém cuja identidade de gênero possui, está aberta a construir ou é composta por “uma ponte” que atravessa ou vem de outras experiências de sua vida, como neurodivergência, orientação ou regionalidade, por exemplo;
    • Alguém que percebe que a própria identidade de gênero contém pontes entre seus gêneros;
    • Alguém cujo gênero é relacionado com uma ou mais pontes reais ou imaginárias em relação a suas estruturas, seus materiais, suas cores ou afins;
    • Alguém que se apresenta para o mundo de forma aberta à possibilidade de relacionar sua identidade de gênero com pontes.

    Alguém não precisa cumprir todos estes parâmetros para se dizer gênero-ponte; só há a necessidade de associar de alguma forma a identidade de gênero com alguma forma de ponte, sendo os itens acima alguns exemplos de como atingir isso.

    Gênero-baleia

    Theo (Eutocansada6789 em colorid.es) cunhou este xenogênero em 26 de junho. Ele descreve um gênero relacionado a, conectado a, influenciado por ou que tem qualidades comparáveis às de baleias.

    Portanto, é um termo que pode abranger praticamente qualquer gênero que tenha a ver com baleias, como um gênero grande como uma baleia, ou que lembra sons que baleias fazem.

    Bandeira méstrica

    Méstrique

    Este termo descreve qualquer forma de atração, relacionamento, orientação ou afins que envolvam ao menos uma pessoa não-binária. Ele foi cunhado em 4 de julho por Delta, the-delta-quadrant no Tumblr.

    Méstrique é uma resposta a diamórique, um termo juvélico que foi feito para centralizar pessoas não-binárias. Uma pessoa não-binária pode chamar qualquer atração que tem de diamórica, e qualquer relacionamento envolvendo ao menos uma pessoa não-binária pode ser chamado de diamórico, mas pessoas binárias (as que são sempre, completamente e somente homens ou sempre, completamente e somente mulheres) não podem se dizer diamóricas. No entanto, uma pessoa binária que sente atração por pessoas não-binárias pode chamar tal atração de méstrica.

    Para facilitar a explicação da diferença entre méstrique e outros termos juvélicos que envolvem pessoas não-binárias, vou usar as seguintes siglas:

    • NBaNB descreve pessoas não-binárias atraídas por pessoas não-binárias.
    • BaNB descreve pessoas binárias atraídas por pessoas não-binárias.
    • NBaB descreve pessoas não-binárias atraídas por pessoas binárias.
    • NB/NB descreve um relacionamento envolvendo duas pessoas não-binárias.
    • NB/B descreve um relacionamento envolvendo uma pessoa não-binária e uma pessoa binária.

    (Não existem termos específicos para relacionamentos envolvendo mais de duas pessoas, e portanto fica a critério de cada ume que termos se aplicam a si dentro de um polículo.)

    Enfim:

    • Embinárique (enboric) descreve atração de qualquer pessoa LGBTQIAPN+ por pessoas não-binárias.
      • Atração NBaNB pode ser descrita como embinárica.
      • Atração BaNB pode ser descrita como embinárica.
      • Atração NBaB não deve ser descrita como embinárica.
      • De forma geral, este termo não parece ter sido feito para descrever relacionamentos.
    • Enebeane (enbian) descreve atração/relacionamentos entre duas pessoas não-binárias.
      • Atração NBaNB pode ser descrita como enebeana.
      • Atração BaNB ou NBaB não deve ser descrita como enebeana.
      • Relacionamentos NB/NB podem ser descritos como enebeanos.
      • Relacionamentos NB/B não devem ser descritos como enebeanos.
    • Diamórique (diamoric) descreve relacionamentos envolvendo ao menos uma pessoa não-binária ou a atração de uma pessoa não-binária que considera sua não-binaridade relevante.
      • Atração NBaNB pode ser descrita como diamórica.
      • Atração BaNB não deve ser descrita como diamórica.
      • Atração NBaB pode ser descrita como diamórica.
      • Relacionamentos NB/NB podem ser descritos como diamóricos.
      • Relacionamentos NB/B podem ser descritos como diamóricos.
      • Em adição a isso, o termo “orientações diamóricas” é ocasionalmente utilizado para falar sobre orientações e termos juvélicos que envolvem atração vinda de pessoas não-binárias, como enebeane, mártique, feminamórique e escapolitiane.
    • E, finalmente, méstrique (mestric) descreve qualquer relacionamento, orientação ou atração envolvendo alguma pessoa não-binária.
      • Atração NBaNB pode ser descrita como méstrica.
      • Atração BaNB pode ser descrita como méstrica.
      • Atração NBaB pode ser descrita como méstrica.
      • Relacionamentos NB/NB podem ser descritos como méstricos.
      • Relacionamentos NB/B podem ser descritos como méstricos.
      • Em adição a isso, o termo “orientação méstrica” pode ser usado para descrever quaisquer orientações e termos juvélicos que envolvem especificamente atração por e/ou vinda de pessoas não-binárias.

    O termo mestric foi inspirado em Mnestra/Mestra da mitologia grega, que ganhou a habilidade de trocar de forma do deus Poseidon. A tradução, méstrique, possui final de palavra flexível: um símbolo seria méstrico, alguém que usa i como final de palavra seria méstriqui e por assim vai.

    A bandeira méstrica usa a cor amarela para simbolizar não-binaridade e um girassol para representar alegria.

    Bandeira angelissexo/angeligenital

    Angeligenital ou angelissexo

    Em 15 de agosto, queer-coining no Tumblr postou uma resposta à pergunta de uma pessoa anônima que pediu uma bandeira para o termo. A bandeira foi postada em 27 de agosto.

    Os termos em si se referem a alguém que quer ter genitália/sexo angelical. É um termo altersexo do mesmo tipo que transgenital, angenital e genital-fluxo, por exemplo.

    Esta identidade provavelmente foi cunhada com base na ideia de que anjos não possuem genitália ou possuem genitália que não é humana, visto que não é uma espécie que precisa se reproduzir de acordo com várias histórias produzidas sobre a espécie.

    Bandeira queertina

    Queertine

    Em 12 de dezembro, queer-coining publicou bandeiras e definições de queertine, que se refere àquelus cujas identidades queer são influenciadas por serem latines (ou seja, por serem ou terem ascendência da América Latina). É possível dizer que este termo é uma forma de identidade vesil.

    Queertine tem final de palavra flexível. Uma pessoa é queertina, um grupo é queertino, etc.

    Virnorromântique

    Bandeira virnorromântica

    Este termo foi cunhado por lovesicklie no Tumblr em uma postagem feita em 14 de dezembro. Sua base foi um pedido feito no Tumblr the-mogai-request-graveyard publicado em 2 de dezembro por Autumn, autumnmoon-morrison no Tumblr. O pedido em si continha uma definição sem qualquer menção a possíveis nomes ou símbolos para a identidade.

    Uma pessoa virnorromântica – o final de palavra é flexível, assim como acontece em geral com orientações românticas – sente atração romântica facilmente por conta de neurodivergência e/ou trauma. No sentido de que tem quedas por praticamente qualquer pessoa em volta de sua idade que demonstra bondade para ela e compatibilidade com suas preferências.

    Esta orientação não especifica gênero, então é tanto possível que seja uma orientação múlti que não depende de identidade de gênero quanto uma orientação “combinável” com outras (hétero, tóren, bi, etc). É, de qualquer forma, uma neuro-orientação.

    Bandeira enebaorientada

    Enba- (possíveis traduções: emba, eneba)

    A pedido de uma pessoa anônima, Dexter, neopronouns no Tumblr, cunhou a orientação enba e postou sobre ela e sua bandeira em 28 de dezembro. O termo descreve alguém que sente atração por pessoas não-binárias, de forma que explicitamente não se refere à identidade de gênero de quem possui tal atração.

    Enba vem de enban, um termo para descrever pessoas não-binárias adultas (o qual eu adaptaria como embã ou enebã). A orientação é para ser equivalente a home/ma e mulhe/woma; por isso a ausência da última letra. A bandeira também imita algumas das bandeiras de tais orientações.

    Como o termo é quase que uma palavra usada para descrever pessoas não-binárias, pode ser uma boa ideia tentar usá-lo com sufixos de orientações quando possível, como em enbaorientade, embarromântique ou enebassexual.

    Bandeira saliliana

    Saliliane

    Também no dia 28 de dezembro, Vincent, haunted-thing no Tumblr, publicou a cunhagem de salilian, uma palavra para descrever lésbiques inconformistas de gênero.

    A cunhagem foi inspirada por laveniane, que descreve turianes (homens gays) inconformistas de gênero.

    Saliliane é uma palavra com final de palavra flexível. Uma lésbica seria saliliana, enquanto um lésbico seria saliliano. (Há pessoas que, mesmo tendo alguma associação com mulheridade, não usam a/ela/a, por conta de não-binaridade e/ou inconformismo de gênero. Leia mais sobre não-conformidade de linguagem aqui.)

    Como quatro destes termos foram cunhados em dezembro, que tal uma lista rápida com mais termos, um por mês?

    • Janeiro: humor-fluxo, uma forma de gênero-fluxo que varia com base no humor;
    • Fevereiro: poetauródique, alguém cujo gênero é relacionado a ter uma aura de tragédia poética;
    • Março: turiknight (ou turicavaleire), um gênero relacionado a ser homem com atração por homens e ume cavaleire;
    • Abril: deceptóxique, alguém cujo gênero é relacionado a parecer mais perigose do que realmente é;
    • Maio: myceriane (ou miceriane), um neurogênero relacionado a fungos de forma que é vasto, interconectado, relacionado a ciclos naturais, além da compreensão e só entendível depois de deixar conceitos mundanos para trás;
    • Junho: sistema de gêneros shroom, o qual é majoritariamente composto por gêneros relacionados a outros gêneros mas de forma que só podem ser conceitualizados como fungos;
    • Julho: bitgênero, 1-10% de um gênero enquanto o resto é outra(s) coisa(s), de forma similar a nanogênero/demigênero;
    • Agosto: eteriane, alguém que é veldiane e urânique, e talássique, alguém que é lésbique e netúnique;
    • Setembro: chaosoul, um gênero relacionado com a alma da pessoa e com caos;
    • Outubro: cenilunar, uma identidade relacionada com feminilidade e/ou com ser mulher ou que está indo em direção a isso, e cenitidal, uma identidade relacionada com masculinidade e/ou com ser homem ou que está indo em direção a isso;
    • Novembro: luminaeiane, um termo juvélico para pessoas transfemininas atraídas por pessoas transfemininas, e estariane, um termo juvélico para pessoas transmasculinas atraídas por pessoas transmasculinas;
    • Dezembro: gênero-alegria, um gênero que tem a sensação de ser feliz e alegre; um gênero relacionado a euforia de gênero e felicidade; um gênero que tem a sensação de ser morno como um dia de sol.

    Aqui terminam os destaques de 2023. Que eles tenham ajudado a descobrir termos novos para considerar!

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    https://orientando.org/2024/01/alguns-termos-cunhados-em-2023/

    » Que gêneros são não-binários?