Um bando de demônios maliciosos

Assisti a um filme no qual tropecei no começo do século: Melhor é Impossível. O que me fez assistir, na época, foi a presença de Jack Nicholson no elenco. Ele interpreta um escritor que vive em seu mundo particular, totalmente permeado por neuroses. Seu único contato com o mundo real é uma garçonete, interpretada pela maravilhosa Helen Hunt.

Udall vivia preso em si mesmo até que um cãozinho atravessou seu caminho, após o vizinho sofrer um assalto. O bicho, minúsculo, virou um gigante. Faz o escritor ser alguém melhor, libertando-o de algumas de suas amarras e permitindo que a garçonete finalmente o veja como uma pessoa de verdade.

O escritor não é totalmente indiferente às suas limitações. Ele sabe de suas feridas e aceita que, talvez, “melhor é impossível” — o que dá nome ao filme. Existem razões para aquele homem ser como é, mas o filme não as revela. Não sei quais são as causas de seus tormentos, mas torci muito para que ele as superasse. Não para que fosse perfeito. Apenas para que fosse capaz de andar pelas calçadas sem precisar desviar das linhas no chão. E é o que ele faz ao abrir a porta para a mulher que ama. Ela não precisava que ele fosse melhor. Ela sabia que contos de fadas não existem e que a vida real, no fundo, é apenas aquilo que é possível.

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Meu pensamento, ao acaso, vagando

Certa vez me disseram que conhecer uma pessoa leva tempo… uma vida inteira. Talvez duas ou três! Na época, eu me diverti com a frase, sem pensar muito a respeito. Passaram-se os dias, os meses, os anos — todos os movimentos de rotação e translação ao redor de si e dos outros. Giramos tanto que o cérebro nem consegue processar tudo.

E nesse giro, encontramos pessoas. Algumas são como pássaro. Migram para a minha vida por um instante e foram embora no outro. Outras ficaram um pouco mais. Sei apenas que ficaram e depois se foram, levando tudo de si. São essas as que me causam desconforto. Preciso que deixem qualquosa de si. Nem que seja uma migalha…

E há pessoas que chegam, se espalham e vão ficando. Só vão embora quando são arrastadas para longe. Não queriam ir, mas não tiveram a opção de ficar. É difícil vê-las partir, mas ao menos elas deixaram suas marcas.

E tem essa menina-mulher-poeta que eu chamo de encantadora de pássaros. Ela tem um beija-flor de estimação e sabê-la é um presente. Adoro as notícias que chegam de seu quintal. Nossos mundos estão longe em quilómetros, mas perto na alma.

 Eu não atraio pássaros para as minhas mãos. Sou apenas uma observadora. Olho o voo entre os galhos, a folha que cai no chão em seu último suspiro e a semente que vinga no solo. Aprendo com os ciclos. Com a vida, com a morte e com tudo o que fica pelo caminho.

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Dissolve a inquietação no azul

Fui até a prateleira buscar um poeta e voltei com Baudelaire. Fazia tempo. Preparei uma xícara de chá, sentei no canto da mesa e comecei a ler, saboreando as palavras entre os goles.

Lembrei que seus versos já foram condenados. As Flores do Mal chocou a todos ao retratar a decadência urbana e humana. A sociedade da época não era incapaz de entender; o problema é que, assim como hoje, existiam fiscais da moral. Gente que preferia proibir o livro a enxergar as próprias misérias no espelho.

A obra-prima levou vinte e sete anos para ficar pronta. Baudelaire começou aos vinte e terminou aos trinta e seis. Não havia pressa em seus passos, apenas um cuidado extremo.

Cartas antigas revelam o longo processo de correções rigorosas, reescritas e rascunhos destruídos. O “poeta maldito” buscava a perfeição e a alta consciência poética. Deixou o tempo trabalhar a favor da sua arte.

Será que os poetas desse nosso tempo, seriam capazes de tal feito?

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Aflição de ser eu — e não ser outra

Pela manhã, resolvi pegar a mochila e enfiar coisas dentro — livro, notebook, cadernos, caneta e a garrafa de água. Passava das nove e não tinha ideia para onde os meus passos iriam me levar. Gosto desse existir sem mapas, sabendo que, em algum momento, algo irá atingir o meu corpo, como um raio.

Ao andar pelas calçadas, sinto todos os caminhos em mim… uma subida aguda, uma linha reta e comprida, algumas curvas, mais abertas-fechadas… ruas para cima e para baixo — para o lado. Essa cidade pulsa sem cerimônia para dentro do meu corpo e me impregna por inteira.

Tudo que eu sabia — ao sair de casa — era que precisava de um lugar… onde tomar café. Ando sentindo falta das minhas tardes entre esquinas, onde escrevia meus textos diários.

Acabei no mesmo lugar de tantos ontens… o Café da Livraria da Vila. É um cenário interessante. Parece uma vila com mesas e cadeiras. Um jardim de inverno de uma casa. É confortável e consigo escrever entre golpes.

A primeira vez em que estive aqui, tinha acabado de me mudar para Moema e saí para andar com o cão — meu menino Patrick. Ele era um ótimo guia… e eu gostava de me deixar guiar por seus passos certeiros. Ao encarar a fachada, percebi que seria um lugar-comum para mim. Comprar livros e tomar café — combinação perfeita. Comprei um livro de Lygia Fagundes Telles na primeira visita. Bati um agradável papo com a vendedora-livreira que me levou até o Café — que era outro que não a esse. Mudou muita coisa por aqui. O charme e o aconchego permanecem intactos.

Ao abrir o computador e procurar o texto para trabalhar nele, lembrei-me da pessoa que inspirou a personagem Alexandra. Sua visita inesperada no ano seguinte. Chegou sem avisar. Tinha um objetivo. Ler em primeira mão o que eu havia escrito. Ficou em silêncio — como da primeira vez. Sua imagem sentada nos degraus na frente da casa é uma fotografia colada no meu álbum imaginário.

Quando foi embora… deixou um punhado de rastros, que eu segui feito um cão farejador…Ao ler ‘a cidade é um chão de palavras pisadas’… ela sorriu e disse: parece que você esteve lá.

Certas pessoas são lugares que a gente visita e, sometimes, ficamos por uns dias-semanas-meses. Ao partir, levamos tudo ou nada na própria pele.

Se optar por ler o meu romance Lua de Papel, espero que se sinta assim… como quem visita a casa de Alexandra, entra para tomar um café feito por Maria (a mãe dela) e que se sirva de uma generosa fatia de bolo (comprado na única padaria de Teodoro) ao se sentar à mesa da cozinha, um lugar quadrado, com móveis azuis envelhecidos de tempo.

São pessoas simpáticas, vivendo suas vidas diminutas, tão iguais…
São pessoas assustadas com o que fingem não saber…

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15 | Estou só no mundo, como um peão a cair…

Cara M, fiz uma pausa para o café no meio da tarde. Olhando o gotejar escuro na xícara, sorri com uma lembrança. William Hurt e Elizabeth Perkins dançando no deserto. Ela no fim da vida; ele no início de um recomeço. Rodopiando ao som de Laurie Anderson, libertando o corpo de todos os pesos.

Lembrei dos torvelinhos de ar quente que eu via da janela do quarto na infância. Surgiam do nada no calor, carregavam o que podiam e sumiam sem rastro. Um sopro morno que durava o tempo de um fôlego.

Depois veio a bailarina no teatro com C., executando a pirueta perfeita na ponta do pé. E a patinadora no gelo com seus spins velozes no inverno. Tudo parecia imitar o vento do meu quintal.

Decidi virar redemoinho! Para isso, abria os braços, fechava os olhos e girava, girava, girava. Meu corpo não tinha essa agilidade; a tontura vinha e eu caía. O mundo girava ao contrário e eu fechava os olhos, tentando digerir por dentro o movimento que criei do lado de fora.

O que não sabia é que devido aos rodopios, o meu cérebro recebia informações desatualizadas e entrava em parafuso, como um avião em queda.

Faz tempo que não cruzo com um redemoinho de vento morno real. Agora, meus torvelinhos são imaginários. São os mesmos que uso para dar vida e movimento às minhas palavras.

Au revoir

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Trabalhe em silêncio e só abra a boca para dizer: XEQUE MATE!" ♟️

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Garota,
A melhor fase, não é quando tudo muda,
é quando a gente finalmente se enxerga.

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A gente precisa saber o nosso lugar, tanto no mundo quanto na vida dos outros. Não dá pra viver tentando se encaixar em tudo. Se não cabe, não vale a pena se apequenar. Alguns espaços e algumas pessoas não foram feitos pra gente, e por isso ir embora, muitas vezes, é libertador.

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