15 | Estou só no mundo, como um peão a cair…

Cara M, fiz uma pausa para o café no meio da tarde. Olhando o gotejar escuro na xícara, sorri com uma lembrança. William Hurt e Elizabeth Perkins dançando no deserto. Ela no fim da vida; ele no início de um recomeço. Rodopiando ao som de Laurie Anderson, libertando o corpo de todos os pesos.

Lembrei dos torvelinhos de ar quente que eu via da janela do quarto na infância. Surgiam do nada no calor, carregavam o que podiam e sumiam sem rastro. Um sopro morno que durava o tempo de um fôlego.

Depois veio a bailarina no teatro com C., executando a pirueta perfeita na ponta do pé. E a patinadora no gelo com seus spins velozes no inverno. Tudo parecia imitar o vento do meu quintal.

Decidi virar redemoinho! Para isso, abria os braços, fechava os olhos e girava, girava, girava. Meu corpo não tinha essa agilidade; a tontura vinha e eu caía. O mundo girava ao contrário e eu fechava os olhos, tentando digerir por dentro o movimento que criei do lado de fora.

O que não sabia é que devido aos rodopios, o meu cérebro recebia informações desatualizadas e entrava em parafuso, como um avião em queda.

Faz tempo que não cruzo com um redemoinho de vento morno real. Agora, meus torvelinhos são imaginários. São os mesmos que uso para dar vida e movimento às minhas palavras.

Au revoir

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