Meu pensamento, ao acaso, vagando

Certa vez me disseram que conhecer uma pessoa leva tempo… uma vida inteira. Talvez duas ou três! Na época, eu me diverti com a frase, sem pensar muito a respeito. Passaram-se os dias, os meses, os anos — todos os movimentos de rotação e translação ao redor de si e dos outros. Giramos tanto que o cérebro nem consegue processar tudo.

E nesse giro, encontramos pessoas. Algumas são como pássaro. Migram para a minha vida por um instante e foram embora no outro. Outras ficaram um pouco mais. Sei apenas que ficaram e depois se foram, levando tudo de si. São essas as que me causam desconforto. Preciso que deixem qualquosa de si. Nem que seja uma migalha…

E há pessoas que chegam, se espalham e vão ficando. Só vão embora quando são arrastadas para longe. Não queriam ir, mas não tiveram a opção de ficar. É difícil vê-las partir, mas ao menos elas deixaram suas marcas.

E tem essa menina-mulher-poeta que eu chamo de encantadora de pássaros. Ela tem um beija-flor de estimação e sabê-la é um presente. Adoro as notícias que chegam de seu quintal. Nossos mundos estão longe em quilómetros, mas perto na alma.

 Eu não atraio pássaros para as minhas mãos. Sou apenas uma observadora. Olho o voo entre os galhos, a folha que cai no chão em seu último suspiro e a semente que vinga no solo. Aprendo com os ciclos. Com a vida, com a morte e com tudo o que fica pelo caminho.

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A beleza do corpo é um dom sublime

Tarde de ontem. Sem motivo aparente, comecei a tramar uma cena erótica. O corpo desenhou cada detalhe sozinho: o toque, a vontade súbita, o rebuliço que explode por dentro. Escrever o desejo me fascina.

Mas prefiro o silêncio das cenas mudas. Rejeito o espalhafatoso e as palavras forçadas. Minha busca é pelo sutil, pelo que mora nas entrelinhas. O beijo que chega sem pressa e se acomoda, abrindo espaço para o tato mapear a pele, descobrindo texturas e temperaturas.

O que me move é o arrepio causado pela palavra exata. A nudez oculta que se oferece apenas para a ponta das digitais. O vento frio que arrepia os pelos, a pressa em abocanhar uma fruta madura, o festim das carícias libertinas.

Ler Hilda Hilst e Baudelaire é encontrar esse equilíbrio perfeito. Os dois são, para mim, as verdadeiras portas da carne.

Fotografia de Mira Nedyalkova

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Aflição de ser eu — e não ser outra

Pela manhã, resolvi pegar a mochila e enfiar coisas dentro — livro, notebook, cadernos, caneta e a garrafa de água. Passava das nove e não tinha ideia para onde os meus passos iriam me levar. Gosto desse existir sem mapas, sabendo que, em algum momento, algo irá atingir o meu corpo, como um raio.

Ao andar pelas calçadas, sinto todos os caminhos em mim… uma subida aguda, uma linha reta e comprida, algumas curvas, mais abertas-fechadas… ruas para cima e para baixo — para o lado. Essa cidade pulsa sem cerimônia para dentro do meu corpo e me impregna por inteira.

Tudo que eu sabia — ao sair de casa — era que precisava de um lugar… onde tomar café. Ando sentindo falta das minhas tardes entre esquinas, onde escrevia meus textos diários.

Acabei no mesmo lugar de tantos ontens… o Café da Livraria da Vila. É um cenário interessante. Parece uma vila com mesas e cadeiras. Um jardim de inverno de uma casa. É confortável e consigo escrever entre golpes.

A primeira vez em que estive aqui, tinha acabado de me mudar para Moema e saí para andar com o cão — meu menino Patrick. Ele era um ótimo guia… e eu gostava de me deixar guiar por seus passos certeiros. Ao encarar a fachada, percebi que seria um lugar-comum para mim. Comprar livros e tomar café — combinação perfeita. Comprei um livro de Lygia Fagundes Telles na primeira visita. Bati um agradável papo com a vendedora-livreira que me levou até o Café — que era outro que não a esse. Mudou muita coisa por aqui. O charme e o aconchego permanecem intactos.

Ao abrir o computador e procurar o texto para trabalhar nele, lembrei-me da pessoa que inspirou a personagem Alexandra. Sua visita inesperada no ano seguinte. Chegou sem avisar. Tinha um objetivo. Ler em primeira mão o que eu havia escrito. Ficou em silêncio — como da primeira vez. Sua imagem sentada nos degraus na frente da casa é uma fotografia colada no meu álbum imaginário.

Quando foi embora… deixou um punhado de rastros, que eu segui feito um cão farejador…Ao ler ‘a cidade é um chão de palavras pisadas’… ela sorriu e disse: parece que você esteve lá.

Certas pessoas são lugares que a gente visita e, sometimes, ficamos por uns dias-semanas-meses. Ao partir, levamos tudo ou nada na própria pele.

Se optar por ler o meu romance Lua de Papel, espero que se sinta assim… como quem visita a casa de Alexandra, entra para tomar um café feito por Maria (a mãe dela) e que se sirva de uma generosa fatia de bolo (comprado na única padaria de Teodoro) ao se sentar à mesa da cozinha, um lugar quadrado, com móveis azuis envelhecidos de tempo.

São pessoas simpáticas, vivendo suas vidas diminutas, tão iguais…
São pessoas assustadas com o que fingem não saber…

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