Série: Emergência Radioativa
A série é inspirada em fatos reais, mas com bastante liberdade de criativa para fins narrativos e dramáticos.
Não faço spoilers, então acrescentei o link para o artigo na Wikipedia que foi o mais completo que achei. Coloquei também o artigo do Metrópoles, mas acho que tem partes dele escritas por IA ou baseado na série e não nos fatos.
No entanto, a precisão dos fatos não importa tanto, pois o essencial está lá:
- O acidente ocorreu nas mesmas dimensões. Eu tinha 20 anos e lembro bem
- A tentativa de abafar o caso está retratada, ainda que de uma forma complacente com os políticos envolvidos
- O número de mortes, contaminados, a dimensão da operação estão corretos
- As investigações policiais atrás de responsáveis também são lembradas
O que realmente importa é a dramatização e ela nos coloca dentro da crise, dos dramas pessoais das pessoas e famílias atingidas, da perplexidade dos especialistas e voluntários que participaram do socorro.
Em momento nenhum, por exemplo, tive raiva das pessoas que espalharam o césio, elas foram vítimas do descaso de quem deixou o equipamento jogado e da ignorância, compreensível mesmo tendo acontecido apenas um ano depois de Chernobyl.
Diversas reações estão retratadas nos personagens desde a negação, a desconfiança, a insegurança, a dor da perda, a rejeição e estigmatização, a aceitação.
Mais do que uma série inspirada no acidente radiológico que pode ser o mais impactante do mundo por ter acontecido em área urbana (e é considerado o mais sério fora de usinas nucleares) é uma série sobre a impotência diante de um mal invisível que está muito além das nossas capacidades, assim como são muitos males modernos, arrisco até um salto interpretativo para falar do impacto que algoritmos, mídias sociais e IAs generativas tem sobre os nossos pensamentos, espírito e percepção do mundo. Em um salto menor podemos falar da influência das corporações que interferem em nossos hábitos alimentares e do marketing a que somos expostas praticamente a cada minuto em uma época em que estamos quase o tempo todo com os olhos colados em uma tela ou em propagandas que pipocam entre músicas, em outdoors, em toda parte.
É um cenário em que estamos sofrendo a influência de radiações imperceptíveis e, quando elas começam a causar efeitos, resta-nos a família, as amizades e fazer o que está ao nosso alcance para animar e sermos animadas por essas pessoas, a ajudá-las a dar o passo difícil que pode ser abandonar a própria casa ou uma mídia sociais… Desculpem, esse paralelo grudou nos meus sentimentos porque fiz exatamente isso: saí das mídias sociais e fui para as redes sociais (o Fediverso) deixando pessoas queridas para trás que procuro alertar gentilmente que estão expostas a “radiação” e que podem e devem se livrar daquilo.
A sua associação ao ver a série pode ser totalmente outra, afinal existem muitas “radiações” que nos contaminam. Desde um relacionamento abusivo até um meio tóxico ou, no caso de homens, principalmente, uma cultura que constrói uma masculinidade falsa e tóxica que leva ao machismo.
Enfim… Como toda obra bem escrita, a série nos serve a muitos caminhos!
Chorei várias vezes assistindo e antes mesmo das reflexões desse post, simplesmente me colocando no lugar das pessoas naquela história fatídica, no lugar de quem foi contaminado, de quem escapou da contaminação enquanto pessoas importantes para ela não escaparam, dos médicos e socorristas.
A série não parece ser feita para ser pesada, não é muito gráfica, mas se você realmente mergulhar no lugar daquelas pessoas, é pesada sim! Mas continua sendo muito recomendável!
Fontes
- Acidente Radiológico de Goiânia na Wikipedia
- Artigo no Metrópoles listando alguns dos fatos principais (desconfio da fidelidade, mas está bem completo)
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