Uma retrospectiva de 2014
Aqui no Orientando, as pĂĄginas para cada identidade sĂŁo, em geral, separadas: cada uma vai relatar a histĂłria de uma Ășnica identidade, e poucas mencionam detalhes sobre o contexto onde cada identidade surgiu para alĂ©m de alguĂ©m especĂfique apresentando um termo e definindo-o com suas palavras.
PorĂ©m, identidades LGBTQIAPN+ nĂŁo surgem espontaneamente: cada uma Ă© construĂda com base em concepçÔes jĂĄ existentes. Um termo como neuorientade, por exemplo, nĂŁo pode existir sem o conceito de inexistĂȘncia de gĂȘnero, que como parte de uma identidade precisa ser uma oposição a existĂȘncia de gĂȘneros, mesmo em uma sociedade onde sĂł se conhecem os gĂȘneros homem e mulher.
Estes são exemplos mais óbvios. Nesta postagem, porém, eu não tenho como dizer com certeza o quanto dos desenvolvimentos elaborados aqui são espontùneos ou partem de contextos diferentes, e o quanto se devem a interaçÔes entre as mesmas comunidades. Eu conheço parte da história por ter participado de grupos com pessoas que fizeram parte delas, ou por ler blogs onde partes dessas histórias ocorreram, mas não consigo conectar todas as pessoas que cunharam termos importantes em 2014 entre si de forma concreta. Mesmo assim, houveram e haverão pessoas colocando todas essas figuras relevantes de 2014 como parte de um mesmo movimento. Esta postagem é sobre isso.
Termos descrevendo cisdissidĂȘncia e heterodissidĂȘncia antes de 2014
BiĂąngulos, sĂmbolo bissexual proposto em 1997 por Liz Nania.
Embora seja possĂvel afirmar com segurança que a maior parte dos termos cunhados hoje em dia possuem suas origens na Ășltima dĂ©cada, isso nĂŁo significa que antes dela nĂŁo havia nenhuma diversidade de termos. Por exemplo:
- O termo âhomossexualâ surgiu no sĂ©culo XIX. LĂ©sbique surgiu pela mesma Ă©poca, enquanto o termo gay se popularizou como sinĂŽnimo para âhomem que tem relaçÔes com homensâ dĂ©cadas depois. Dito isso, atĂ© o surgimento de outros termos, era comum (assim como ainda Ă©, atĂ© certo ponto) colocar outras pessoas que desviam da cisnorma e da heteronorma como gays, lĂ©sbicas ou outros sinĂŽnimos, por mais que nĂŁo se encaixem na definição comumente entendida hoje em dia de âhomem ou mulher que tem atração somente pelo mesmo gĂȘnero que possuiâ;
- As palavras transgĂȘnero e transexual, assim como outras similares que nĂŁo sĂŁo mais utilizadas (como âtransgeneristaâ), surgiram no sĂ©culo XX (fonte 1, fonte 2);
- O movimento bissexual â o qual estĂĄ se reunindo em torno de um termo separado por conta de sua atração por mĂșltiplos gĂȘneros â existe desde os anos 60 ou 70;
- O Manifesto Assexual Ă© um documento de 1972 que coloca assexualidade como âalguĂ©m que nĂŁo se vĂȘ sexualmente com ninguĂ©mâ ou âalguĂ©m cuja sexualidade Ă© autocontidaâ, em oposição a noçÔes de que sexo Ă© inerentemente errado ou que nĂŁo ter relaçÔes sexuais Ă© uma forma de sacrifĂcio. O contexto Ă© que feministas heterossexuais, homossexuais e bissexuais dentro de um conselho de Nova Iorque podiam trazer suas prĂłprias pautas, e Lisa Orlando e Barbie Hunter Getz sentiram que nĂŁo se encaixavam em nenhum desses trĂȘs grupos e se reuniram para escrever o manifesto.
- Embora o termo só tenha sido popularizado posteriormente quando mencionado na internet, TeddyMiller mencionou ter começado a usar o termo fictossexual em 1989 ou em algum ano próximo deste;
- O termo bigĂȘnero foi usado como autoidentificação em uma publicação de 1991;
- O termo neutrois, com sua definição original de âalguĂ©m que quer perder suas caracterĂsticas fĂsicas generificadasâ, foi cunhado em 1995;
- Termos como andrĂłgine, salmaciane e epicene sĂŁo descritos tambĂ©m com significados que podem ser entendidos como partes de experiĂȘncias nĂŁo-binĂĄrias neste site publicado em 1996;
- Os termos homoflexĂvel e heteroflexĂvel sĂŁo mencionados em um livro publicado em 1997;
- O termo pomossexual foi cunhado em uma publicação de 1997;
- Sites como Gillybooâs Gay Graphics, Gayscape e PrideLinks, do final dos anos 90 e inĂcio dos anos 2000, jĂĄ demonstram que a separação entre gay, lĂ©sbique, bi e trans era reconhecida dentro da comunidade na internet, assim como, muitas vezes, a uniĂŁo desses termos sob uma Ășnica bandeira ser tambĂ©m relevante;
- A Asexual Visibility and Education Network, mais conhecida por sua sigla AVEN, foi fundada em 2001. A organização em questĂŁo nĂŁo sĂł popularizou o conceito de assexualidade como tambĂ©m forneceu espaços de discussĂŁo que acabaram gerando vĂĄrios termos e sĂmbolos na dĂ©cada seguinte, como as orientaçÔes demissexual (2006) e grissexual (2006). A linguagem acerca da separação de orientação sexual e romĂąntica usada no Orientando em outros lugares tambĂ©m foi desenvolvida na AVEN no meio da dĂ©cada de 2000;
- Este diagrama de 2010 inclui o termo skoliossexual (atualmente cĂ©tero/medissossexual), de forma que define o termo como âatração por pessoas genderqueer, que se identificam tanto como homens quanto mulheres, como nem homens e nem mulheres ou como completamente fora do binĂĄrio de gĂȘneroâ. O diagrama tambĂ©m usa combinaçÔes de skoliossexual com ginessexual (com definição essencialmente igual a woma/mulheorientade) e androssexual (com definição essencialmente igual a ma/homeorientade para descrever atração por um gĂȘnero binĂĄrio e por pessoas genderqueer, definindo pansexual como atração por pessoas genderqueer assim como mulheres e homens e bissexual como atração por homens e mulheres;
- Genderqueer and Non-Binary Identities tem este texto de 2011 sobre como os termos nĂŁo-binĂĄrie e genderqueer estavam sendo utilizados na Ă©poca: algo a se destacar Ă© que a postagem fala que a maioria das pessoas se identificavam individualmente como genderqueer, enquanto âgĂȘnero nĂŁo-binĂĄrioâ era mais comum como termo acadĂȘmico;
- O mesmo blog também tem esta postagem mencionando os termos transfeminine e transmasculine, o que aponta que tais termos foram cunhados em ou antes de 2011;
- O blog Ask a Non-Binary fez sua primeira postagem em 15 de março de 2011, e é um exemplo raro de Tumblr de não-binaridade com tal idade que ainda estå ativo;
- Este grĂĄfico, intitulado âO guarda-chuva bissexualâ, foi postado em 2011, e menciona diversas identidades jĂĄ citadas aqui, assim como lesbiflexĂvel como alternativa a homoflexĂvel para mulheres, bicuriose, polissexual, omnissexual, fluide, multissexual, antrossexual e outras;
- âWTFromĂąntiqueâ, que depois virou quoirromĂąntique, vem de postagens feitas em 2011, como esta. No ano seguinte, o termo quoi foi sugerido;
- A orientação akoi/lith também foi cunhada antes de 2014, possivelmente em 2012;
- Este glossĂĄrio de 2012 no fĂłrum da AVEN menciona os termos androrromĂąntique, gine/ginorromĂąntique e transromĂąntique (um termo para pessoas que se apaixonam principalmente pra pessoas trans, o qual Ă© geralmente usado por pessoas trans, ainda que hoje em dia o termo âT4Tâ seja mais comum).
Estes são alguns exemplos dos termos que existiam/estavam em circulação antes de 2014. Hå outros que não foram mencionados aqui, mas, essencialmente, temos:
- Cis e trans como modalidades de gĂȘnero;
- Algumas identidades fora do binĂĄrio homem/mulher, assim como discussĂŁo sobre elas, mas poucas especificaçÔes de como alguĂ©m pode ter gĂȘneros diferentes de homem e de mulher, e experiĂȘncias poligĂȘnero ou centrigĂȘnero com tendĂȘncia de serem pensadas apenas de formas que contĂ©m ambos os gĂȘneros binĂĄrios;
- Alguma especificação de atração de/por pessoas nĂŁo-binĂĄrias, mas nĂŁo muita (por exemplo, alguĂ©m que quer um termo que define sua atração por um gĂȘnero binĂĄrio e gĂȘneros nĂŁo-binĂĄrios teria que usar ou pĂŽli ou alguma combinação de skolio com outra orientação, e nĂŁo hĂĄ termos que permitem a especificação de por quais identidades nĂŁo-binĂĄrias alguĂ©m Ă© capaz de sentir atração);
- Pouca variedade de termos para descrever atração fluida ou indefinida;
- Alguns termos a-espectrais surgindo, geralmente em publicaçÔes detalhadas em blogs ou discussÔes de fóruns, mas eles tendem a ter propósitos bem separados entre si.
Obviamente, termos que descrevem identidades nĂŁo sĂŁo indicativos de quantas experiĂȘncias existem ou podem existir. O que acontece Ă© que, quando divisĂ”es sĂŁo formadas (heterossexual/homossexual, mulher/homem), isso abre espaço para que cada pessoa possa questionar o quanto se encaixa em cada um desses termos, e para discussĂ”es onde mais palavras precisam surgir para explicar similaridades ou diferenças entre experiĂȘncias. Portanto, faz sentido que, com o passar do tempo, mais termos venham surgindo.
MOGAI (Marginalized Orientations, Gender Alignments and Intersex)
Bandeira MOGAI mais conhecida, provavelmente escolhida em discussÔes em Pride Flags For Us
Esta sigla foi desenvolvida em discussĂ”es no Tumblr, como esta, esta e esta. Como Ă© possĂvel perceber pelas datas, sua formação Ă© datada do inĂcio de 2014, ainda que a pessoa creditada com a sigla exata nĂŁo tenha certeza de onde estĂĄ sua postagem original acerca disso.
A razĂŁo principal da sigla ter sido formada Ă© se afastar de siglas formadas por listas de identidades (como LGBTQIAPN+) e da sigla GSM ou GSRM, pelo M significar âminoriasâ ao invĂ©s de grupos marginalizados/minorizados e por alegaçÔes da pessoa que cunhou tal sigla tambĂ©m querer incluir parafilias como âminorias sexuaisâ (e romĂąnticas, na versĂŁo com R).
A sigla MOGII tambĂ©m ficou em circulação por um tempo, mas a questĂŁo Ă© que os âalinhamentos de gĂȘneroâ (Gender Alignments) os quais foram inclusos em MOGAI nĂŁo se tratavam do que conhecemos como alinhamento de gĂȘnero hoje, e sim de uma tentativa de definir modalidade de gĂȘnero (um termo que sĂł foi cunhado 5 anos depois). âGIâ (Gender Identities) foi um termo rejeitado porque, enquanto homem Ă© uma identidade de gĂȘnero e existem homens trans, mulher tambĂ©m Ă© uma identidade de gĂȘnero e existem mulheres cis; em questĂŁo de identidade de gĂȘnero por si sĂł, mulheres sĂŁo um grupo marginalizado, mas homens nĂŁo.
Ă interessante notar que, mesmo que MOGAI tenha ficado com a reputação de ser sĂł para identidades ânĂŁo consagradasâ â isto Ă©, termos mais novos, termos que rejeitam tanto a cisgeneridade quanto a transgeneridade, identidades nĂŁo-binĂĄrias mais especĂficas usadas por pouques, orientaçÔes que sĂŁo consideradas impossĂveis por quem sĂł acredita em atração por homens, por mulheres ou por ambos estes gĂȘneros, e por assim vai â nĂŁo existiam tantos desses termos na Ă©poca que a sigla foi cunhada. Era comum colocar toda a a-espectralidade âdentro do guarda-chuva assexualâ, toda atração por mĂșltiplos gĂȘneros âdentro do guarda-chuva bissexualâ e toda cisdissidĂȘncia âdentro do guarda-chuva transâ: portanto, LGBTQIA+ nĂŁo estaria longe de ser uma sigla completa, faltando apenas algumas pessoas com orientaçÔes indefinidas, fluidas ou definidas por atração de e/ou por pessoas nĂŁo-binĂĄrias.
Mesmo assim, acredito que a criação da sigla MOGAI tenha aberto novas possibilidades: as pessoas nĂŁo precisavam mais justificar conexĂ”es com termos existentes para descrever suas experiĂȘncias. Por exemplo, alguĂ©m com atração fluida nĂŁo precisaria justificar seu lugar na comunidade por meio de estar âdentro do guarda-chuva biâ ou âdentro do guarda-chuva assexualâ: ter uma orientação heterodissidente por si sĂł seria justificativa suficiente para inclusĂŁo.
Esta pode parecer uma questĂŁo superficial ou pedante, mas a questĂŁo Ă© que invalidação de experiĂȘncias incomuns ou pouco representadas Ă© algo muito comum tanto dentro quanto fora de comunidades LGBTQIAPN+. Portanto, nĂŁo Ă© inconcebĂvel que pessoas mais inseguras sĂł tenham conseguido falar sobre suas experiĂȘncias a partir do ponto em que haviam mais sinais de que elas seriam aceitas.
Blogs de cunhagem/arquivamento
Captura de tela da pĂĄgina /genders em MOGAI Archive em 12/12/2014. Fonte.
Embora pessoas LGBTQIAPN+ jĂĄ se reunissem em fĂłruns e outras redes sociais, Tumblr facilitou bastante o compartilhamento de novos termos, tanto em comunicação direta com blogs que servem ou serviam para centralizar conhecimento sobre termos quanto pelo meio de âreblogarâ postagens jĂĄ feitas por outres. TambĂ©m surgiram alguns blogs especĂficos para resolver dĂșvidas ou oferecer apoio sobre identidades especĂficas.
O blog Non-Binary Noise, que repostou vĂĄrios termos relacionados com nĂŁo-binaridade, começou em janeiro de 2013. Em tal ano, houveram postagens definindo os termos gĂȘnero-fluido, androginia, agĂȘnero, neutrois, bigĂȘnero, hijra, dois espĂritos, gĂȘneros nĂŁo-binĂĄrios e genderqueer, em termos de identidades de gĂȘnero ou questĂ”es similares.
NĂŁo houveram muitas postagens em 2014, mas, em 2015, mais de 40 novos termos foram definidos, incluindo muitos cunhados em 2014, como alexigĂȘnero, juxera, gĂȘnero-cinza, aporagĂȘnero, intergĂȘnero (com a definição de 2014 por actuallyintersex) e apogĂȘnero. Mesmo com a inatividade no ano de 2014, Ă© possĂvel perceber um aumento significativo na gama de identidades nĂŁo-binĂĄrias disponĂveis.
O Tumblr Pride Flags For Us foi capturado pela primeira vez na Wayback Machine por uma postagem feita em 13 de junho de 2014 sobre uma bandeira de orgulho hĂ©tero. Embora tenha sido refeito e depois deletado de vez posteriormente, foi neste blog que originaram vĂĄrios termos e bandeiras, como poligĂȘnero-fluxo (20/06/2014), novi (06/07/2014), amicussexual (ao menos a bandeira Ă© de 05/10/2014), anogĂȘnero (bandeiras publicadas em 28/10/2014) e demirromĂąntique (bandeira publicada 30/09/2014).
O blog MOGAI Archive Ă©, ou ao menos foi, um dos exemplos mais famosos de blogs que arquivaram termos. Embora sĂł tenha funcionado por, no mĂĄximo, um ano, Ă© por lĂĄ que foram divulgados termos como ambonec, duragĂȘnero, biexgĂȘnero, autigĂȘnero, cĂĄli, vĂĄcuo (como orientação) e cas. Um documento contendo todas as identidades nĂŁo-binĂĄrias listadas em MOGAI Archive em 23 de agosto de 2014 pode ser encontrado aqui.
Curiosamente, o Tumblr Pride Archive sĂł esteve ativo durante os meses de julho e agosto de 2014, mas ele ajudou a divulgar dezenas de termos e bandeiras. Algumas das bandeiras feitas por Lyric, que administrava o blog, foram GĂȘnero-LeĂŁo (Lyric tambĂ©m cunhou o termo em questĂŁo), leukogĂȘnero, inersgĂȘnero (termo mais conhecido como apagĂȘnero), paragĂȘnero, hemigĂȘnero e ignota/fray.
Ă possĂvel que hajam outros exemplos, mas acredito que estes tenham sido os mais influentes. O Tumblr Heterosexual is not a default, por exemplo, tem vĂĄrios termos arquivados, mas ele sĂł começou a ser mais ativo a partir de janeiro de 2015 e nĂŁo consigo lembrar de nenhum termo que tenha sido cunhado a partir de tal blog. Purrloin sucks arquivou vĂĄrias identidades nĂŁo-binĂĄrias publicadas em MOGAI Archive, mas o blog nĂŁo tem muito alĂ©m disso.
Em 2015, surgiram MOGAI Lexicon (que não existe mais) e Pride-Flags (que posteriormente também passou a responder perguntas no Tumblr via Ask Pride Color Schemes). Outros arquivos e blogs similares também foram surgindo nos anos seguintes, mas é interessante notar que não existiam muitos antes de 2014.
O efeito dominĂł
Tabela feita por Cor, epochryphal, explicando o motivo do termo ilyagĂȘnero ser diferente de outros que vieram anteriormente.
Ok, foi feita uma sigla que encorajou expressão pessoal ao descrever identidades LGBTQIAPN+ e haviam blogs dispostos a arquivar e espalhar esse vocabulårio que foi surgindo. Porém, ainda não foi dado muito foco em relação a qual foi a progressão dos termos foram surgindo durante o ano de 2014.
Primeiramente, quero falar sobre o termo aliagĂȘnero, originalmente proposto em 20 de janeiro de 2014. A ideia era de descrever um gĂȘnero cuja sensação era de estar alĂ©m dos conceitos de homem, mulher, andrĂłgine ou gĂȘnero neutro.
Pelo termo ter sido mal interpretado como apropriativo, o termo aporagĂȘnero foi cunhado como uma forma supostamente mais Ă©tica de se ver como um gĂȘnero diferente de homem e mulher. PorĂ©m, foi espalhada a ideia de que âaporagĂȘnero Ă© um termo baseado em aliagĂȘneroâ, e, assim, tal termo tambĂ©m foi colocado como igualmente apropriativo, e, portanto, inapropriado.
O termo maverique (31/05/2014), que tambĂ©m descreve um gĂȘnero separado de homem, mulher, gĂȘnero neutro ou qualquer combinação entre tais gĂȘneros foi cunhado pela mesma Ă©poca que aporagĂȘnero, embora isso aparentemente tenha sido coincidĂȘncia. O termo gĂȘnero-inconformista (16/06/2014) foi cunhado com base em maverique, com a diferença principal sendo que pessoas gĂȘnero-inconformista desafiam intencionalmente as normas de gĂȘnero.
Outro termo derivado da mesma ĂĄrvore foi ilyagĂȘnero (30/12/2014), termo cunhado com a intenção de ser mais especĂfico do que aporagĂȘnero ou maverique.
Voltando para o inĂcio do ano, temos gĂȘnero-estrela: um termo cunhado em 27 de janeiro de 2014 para descrever uma experiĂȘncia de gĂȘnero tĂŁo desconhecida que seria alienĂgena ou nĂŁo-humana, talvez como de uma estrela, por ser um gĂȘnero completamente distante dos gĂȘneros binĂĄrios e que ao mesmo tempo tambĂ©m parece poder ser uma neutralidade que abrange tanto feminilidade quanto masculinidade. Embora gĂȘnero-estrela tenha se tornado um exemplo de âidentidade ridĂcula para odiarâ na anglosfera (assim como a presença de gĂȘnero-fofo no Orientando incitou Ăłdio e chacota contra esta identidade especĂfica na lusosfera), e tenha tido popularidade suficiente para ter alguns blogs dedicados Ă identidade (como stargender support), nĂŁo Ă© um termo que parece ter sido muito citado como influĂȘncia para a cunhagem de outras identidades nĂŁo-binĂĄrias.
Dito isso, caelgĂȘnero (julho de 2014; bandeira de 2015) e gĂȘnero-astral (09/06/2016) sĂŁo exemplos de identidades onde ao menos suas bandeiras provavelmente foram influenciadas por esta bandeira gĂȘnero-estrela publicada em Pride Flags For Us em 16 de abril de 2014, a qual foi posteriormente republicada em qualidade melhor em Pride-Flags.
Os termos colocados dentro do guarda-chuva chamado gĂȘneros do zodĂaco tambĂ©m começaram a ser cunhados em 2014, com gĂȘnero-Libra. Pride Archive, apĂłs publicar tal termo, chegou a fazer postagens sobre gĂȘnero-Ăries, gĂȘnero-Virgem, gĂȘnero-LeĂŁo, gĂȘnero-AquĂĄrio, gĂȘnero-CĂąncer e gĂȘnero-Touro, o que coloca estes termos em 2014, mesmo que algumas das postagens originais cunhando tais termos tenham sido perdidas.
Algumas pessoas tambĂ©m começaram a publicar listas com cunhagens de identidades nĂŁo-binĂĄrias, ao invĂ©s de se limitarem a uma identidade de cada vez. Curiosityismysin cunhou estetigĂȘnero e fisgĂȘnero em uma lista contendo outras 4 identidades. Os termos apogĂȘnero, egogĂȘnero, histrigĂȘnero e paragĂȘnero foram cunhados juntos. O termo xenogĂȘnero, que possivelmente se tornou o maior guarda-chuva de identidades nĂŁo-binĂĄrias alĂ©m de termos como nĂŁo-binĂĄrie ou genderqueer, foi cunhado em uma lista com vĂĄrias outras identidades, incluindo gĂȘnero-vĂĄcuo.
Os termos feminine in nature e masculine in nature tambĂ©m vieram de uma sugestĂŁo ao Pride Flags For Us publicada em 20 de julho de 2014. Estes conceitos geraram um modelo repetido para muitas outras qualidades, como autonomia de gĂȘnero e aporinidade, de formas que sĂŁo tanto usadas como partes de orientaçÔes quanto como identidades de gĂȘnero.
Proqua e proquu surgiram como orientaçÔes feitas para pessoas nĂŁo-binĂĄrias femininas e masculinas. SĂŁo possivelmente alguns dos primeiros exemplos de orientaçÔes feitas para pessoas com identidades nĂŁo-binĂĄrias especĂficas, e tambĂ©m de orientaçÔes feitas para que pessoas nĂŁo-binĂĄrias usem, em geral: afinal, termos como fin/min e gine/andro eram abertos para pessoas binĂĄrias, enquanto cĂ©tero/medisso sĂł ganhou a conotação de exclusividade para pessoas nĂŁo-binĂĄrias por conta de preocupaçÔes com fetichização, ao invĂ©s de ter sido um termo pensado somente para quem era nĂŁo-binĂĄrie.
Enquanto o termo demigĂȘnero tenha provavelmente surgido antes de 2014, termos como nanogĂȘnero, magigĂȘnero, pixelgĂȘnero, horogĂȘnero e duragĂȘnero provavelmente foram cunhados em 2014. AlĂ©m disso, demigenderpalace e demigenders sĂŁo ambos blogs demigĂȘnero focados em responder dĂșvidas/informar que sĂł ficaram ativos em 2014 e 2015.
Proxvir e juxera (02/07/2014) tambĂ©m sĂŁo outros termos relativamente conhecidos que surgiram em 2014. Assim como os termos do parĂĄgrafo anterior, estes facilitam estabelecer conexĂ”es com outras identidades jĂĄ existentes para especificar experiĂȘncias de gĂȘnero com mais sutileza, embora juxera e proxvir se resumam a estabelecer tais conexĂ”es com mulher e homem.
AutigĂȘnero jĂĄ foi mencionado, mas os termos gĂȘnero-vago, arovague e acevague provavelmente tambĂ©m foram cunhados em 2014, assim como neurogĂȘnero. Estes termos abrem as portas para identidades que tĂȘm neurodivergĂȘncia como prĂ©-requisito. Naquela lista de termos publicados em MOGAI Archive, mĂșltiplos outros neurogĂȘneros aparecem, como corugĂȘnero, fascigĂȘnero, gĂȘnero-neblina, ludogĂȘnero, maestusgĂȘnero, narkissisgĂȘnero e nesciĆgĂȘnero.
Em relação Ă fluidez de atração: a orientação mud provavelmente foi cunhada atĂ© meados de junho de 2014. HĂĄ este compartilhamento de MOGAI Archive apontando como data mĂĄxima o mĂȘs seguinte para a cunhagem de acefluxo e arofluxo, a qual inclusive referencia gĂȘnero-fluxo, outro termo provavelmente cunhado em 2014. Esta postagem sobre omnigay tambĂ©m aponta que Ă© provĂĄvel que o termo tenha sido cunhado no mesmo ano.
Acredito que isto jĂĄ dĂȘ uma ideia do quanto cada vez mais termos foram cunhados durante este perĂodo. AlĂ©m de casos especĂficos, acho que Ă© possĂvel perceber os seguintes padrĂ”es:
Pessoas tendo ideias para termos a partir de outros que tambĂ©m recĂ©m foram cunhados;Pessoas cunhando termos como forma de resistĂȘncia contra discursos queermĂsicos;Pessoas querendo evitar conotaçÔes de termos anteriores, seja por nĂŁo se verem como partes daquelas comunidades, seja por acreditarem que os termos anteriores eram problemĂĄticos a ponto de serem evitados completamente;Socialização a partir da cunhagem de termos, por meio de discussĂ”es intracomunidade, participar de esforços de arquivamento e afins.
A comunidade lusĂłfona
âBolo colorido dos gĂȘnerosâ, grĂĄfico de Cari Rez Lobo feito com a ajuda de sues amigues publicado no Tumblr Espectrometria NĂŁo-BinĂĄria em outubro de 2014. Embora seja interessante e tenha valor histĂłrico, Ă© importante ressaltar que grĂĄficos como esse tendem a ser reducionistas e/ou nocivos em certos pontos (como a recomendação do termo âterceiro gĂȘneroâ), e que Ă© importante conhecer bem o contexto de cada informação antes de repassar grĂĄficos sem ressalvas sĂł por serem bonitos.
O Tumblr Espectrometria Não-Binåria só teve atividade em 2014 e 2015. A Wiki Diversidades, originalmente Wiki Identidades, também começou em 2014.
Em tais espaços, foram promovidas algumas identidades nĂŁo-binĂĄrias, como as presentes nesta revisĂŁo de 18 de dezembro. GrĂĄficos como este de sĂmbolos de gĂȘnero e este explicando espectros de gĂȘnero tambĂ©m foram publicados em 2014.
A publicação Guia para a Linguagem Oral NĂŁo-binĂĄria ou Neutra (PT-BR) nĂŁo oferece alguma forma resumida de explicitar preferĂȘncias da mesma forma que o modelo artigo/pronome/final de palavra, mas demonstra diversas opçÔes de pronomes (el, ilu, elu, ili) e de finais de palavra (e, nada/apĂłstrofo, i), alĂ©m do neoartigo le.
Sei que também existiam comunidades de Facebook acerca da não-binaridade, que inclusive geraram ou influenciaram tais plataformas e publicaçÔes, mas, como alguém que nunca teve Facebook, nunca tive muito contato com tal parte da comunidade. (Sintam-se livres para preencher esta ou outras lacunas nos comentårios!)
De qualquer forma, o foco parece ter sido reunir identidades cunhadas na anglosfera, e nĂŁo a cunhagem de termos prĂłprios, com a exceção da questĂŁo da neolinguagem. A quantidade de neutralidade em si como um aspecto de identidades de gĂȘnero, a qual aparece no grĂĄfico acima, parece ser um conceito original, mas nĂŁo parecem haver publicaçÔes mais detalhadas sobre o conceito.
A magia continuou?
Cunhagem do termo hestiane, em 2021 no Twitter. Captura de tela daqui.
Como jå mencionei, alguns dos blogs da época ainda estão ativos, e outros espaços também foram surgindo. Alguns exemplos de contas de Tumblr que estão arquivando postagens atualmente são radiomogai e centlpede, mas projetos como LGBTQIA+ Wiki e Gender Wiki facilitam a contribuição comunitåria em comparação com espaços no Tumblr.
Termos ainda sĂŁo cunhados com muita frequĂȘncia, e nĂŁo sĂł no Tumblr (ainda que seja mais fĂĄcil pesquisar no Tumblr do que no Instagram ou no X). JĂĄ nĂŁo estamos mais numa era onde Ă© fĂĄcil acompanhar todas as cunhagens jĂĄ feitas, porque elas sĂŁo feitas de forma espalhada e independente. Os termos em questĂŁo acabam se perdendo mais facilmente por conta disso (de modo geral), mas tambĂ©m Ă© mais comum ver pessoas nĂŁo se importando com informar outres sobre os termos que usam ou cunham: listas repostando definiçÔes sĂŁo menos comuns, por exemplo.
Dito isso, nĂŁo acredito que faça sentido chamar os termos cunhados nesta Ă©poca de âmortosâ. Embora alguns nunca tenham obtido grande popularidade, muitos dos termos cunhados no meio da dĂ©cada de 10 sĂŁo justamente os que estĂŁo arquivados em mais lugares.
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