17 | Eu preciso vigiar a aurora…

Cara M, amanheceu junho, outro mês, outra vida e começo essas linhas, dizendo que me acostumei a escrever-te pela manhã, logo nas primeiras horas, como se fosse uma das nossas conversas matinais, em que falamos do tempo e dos nossos quintais — que desconfiam, conversam entre si, através dos pássaros, farfallas e joaninhas…

E ao me deparar com junho no calendário dos homens… relembrei a mim, a você e os tantos ontens de diálogos que tecemos em meio a goles de café, chá…e as andanças por nossos espaços encantados.

Quando menina, amarrava as expressões, bufava, cruzava os braços e resmungava: “queria adormecer e despertar dentro das manhãs de junho“.  Eram dias de dualidade. Amanheciam azuis e sem cerimônia… surgiam nuvens escuras, seguidas por sonoras trovoadas. As famosas tempestades… anunciando o verão.

Foi dentro dos dias de junho que conheci o meu primeiro Amigo. Durante anos celebramos nós dois. Ele era um oásis para a menina que dizia, sem cerimônia, não gostar de pessoas. Ao que ele retrucava “o importante é que gosta de mim“. Fomos amigos por uma vida inteira — quase duas décadas. Ele soube primeiro de tantas coisas minhas. Foi para ele que liguei para contar da decisão definitiva: vou escrever um romance. Ele gritou do outro lado da linha-mundo. E fez questão de dizer “eu sei de alguém que está muito feliz, esteja onde estiver”…

Quando partiu, uma data em junho ficou vaga e agora são duas. Eu não salto os dias. Nem o primeiro, tampouco o vigésimo terceiro. Fiz um X nas datas assim que espiei os dias de junho… Não  há porque esquecer os dois humanos notáveis que eu tive o prazer de conhecer. Quantos tiveram a mesma alegria que eu… e souberam aproveitar?

Au revoir

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32  | Incorporar-se a vida…

Cara R, passei a madrugada com a sua poesia e amanheci embriagada. Fazia dias que não acompanhava o despertar do dia. Coloquei a chaleira no fogo para um chá. Framboeza com limão siciliano e fui andar pelo quintal. Enquanto observava as ranhuras no chão, lembrei-me de um texto escrito por Borges, que é uma dessas leituras que não cabem dentro de um único momento.

Gosto imenso quando os autores trazem luz às sombras que inventamos pelos caminhos. Na semana passada… experimentei isso. Respondi em meia dúzia de linhas: o que é um romance? Afastei-me da ideia pronta. Ignorei os moldes oferecidos… e escrevi como quem escolhe ingredientes para uma receita ancestral.

O Poeta português José Luís Peixoto fez algo parecido nas primeiras linhas de seu livro: a criança em ruínas. Diz ele, com a calma de quem inspira e expira — os lugares onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos, o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me olhas, o poema é teu rosto, eu, eu não sei escrever a palavra poema, eu, só sei escrever o seu sentido.

Borges foi um talentoso professor-homem-poeta. Não nego que vivi as turras com ele, nos últimos anos. O que não me impediu de reconhecer sua genialidade literária. No ensaio, que escolhi ler em voz alta, escreveu: a poesia é o encontro do leitor com o livro, a descoberta do livro. Há outra experiência estética que é o momento, também muito estranho, em que o poeta concebe a obra, no qual ele vai descobrindo ou inventando a obra. Como se sabe, em latim, as palavras “inventar” e “descobrir” são sinônimas. Tudo isso está de acordo com a doutrina platônica quando esta afirma que inventar, descobrir, é recordar. Francis Bacon acrescenta que, se aprender é recordar, ignorar é saber esquecer; já dispomos de tudo, só nos falta ver.

Em outro trecho, ele afirma: quando escrevo alguma coisa, tenho a sensação de que esse alguma coisa preexiste. Parto de um conceito geral; sei mais ou menos o princípio e o fim, e depois vou descobrindo as partes intermediárias; mas não tenho a sensação de inventá-las, de que dependam do meu arbítrio; as coisas são assim, estão escondidas, e meu dever de poeta é encontrá-las.

Lembrei ao ler, da paixão que sentia — na infância — ao descobrir novas palavras, em idiomas outros. Tomava nota e as guardava dentro de um porquinho de porcelana. Deveria guardar moedas ali. Mas a minha riqueza era outra. As palavras, que eu acrescentava ao meu vocabulário particular — minúsculo naqueles dias… Tinha medo (aos sete) de perdê-las. Soube, ao ler Amélia Rosselli que, palavras se perdem de nós e vão parar no limbo, por desuso-descaso. Foi o que bastou para perturbar a minha existência e vaporizar a minha paz.

No meu aniversário seguinte… pedi e ganhei um conjunto de dicionários: latim-inglês-espanhol-francês e português. Durante algum tempo foi toda a minha biblioteca. Não passava um único dia sem que eu recorresse as páginas em busca de significados. De idioma em idioma, um novo mundo apresentava-se a partir das sonoridades que chegavam. Não gostei de algumas palavras, recusando-as. Outras, passaram a ter uso frequente. Passei a misturar os idiomas e a me expressar com a certeza das melodias.

Borges tinha razão ao dizer que um poeta não inventa poesia. Ele a reencontra. Está tudo no ar, nos lugares e nas pessoas. A estética se oferece ao olhar. E o sentimento dá cor ou abstrai. Tudo em uma pequena fração de segundos em que podemos ter atenção, o bastante para, — como disse, Bradley — recordar alguma coisa esquecida. Da sua poesia, recolhi: solavanco. Era o que acontecia quando um vagão era engatado ao outro, na estação. Gostava imenso daquela colisão. Descobri anos mais tarde que um solavanco atinge o corpo-alma em diferentes momentos. E isso também é poesia…

Au revoir

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