Fica
Amar é, na sua essência, a mais frágil e perigosa sucessão de perguntas. Fazer amor também.
“Entras?”
Mas entras na minha confusão? Nos meus traumas? Nos escombros daquilo que sobrou de mim?
“Posso?”
Posso desarrumar-te a vida? Posso despentear a tua perfeição?
“Ficas?”
Mesmo depois de errar? Mesmo quando a madrugada trouxer a luz fria da realidade e os nossos medos ficarem todos à mostra?
“Queres?”
Queres estar comigo?
É isto. Fazer amor é, irremediavelmente, o fim do controlo. O controlo é para quem conduz no trânsito, com semáforos e regras, não para quem se atira de olhos fechados nos braços do outro. Se, naquele instante de colisão, tu ainda sabes de que lado está o norte, se controlas a cadência da tua respiração e sabes exatamente onde tens cada um dos dedos — lamento, mas não fizeste amor. Fizeste ginástica. Uma coreografia. E uma coreografia pode ser esteticamente irrepreensível, pode ser de uma precisão bonita, calculada, fotogénica. Mas a perfeição não preenche buracos na alma. O que preenche é a falha. O sujo. O percalço. O caos glorioso de duas pessoas que, de repente, não sabem onde começa a respiração de uma e acaba o batimento cardíaco da outra.
Fazer amor é falhar maravilhosamente a ordem das coisas. É mandar a lógica dar uma volta para deixar a urgência governar. É trocar o que está “certo” pelo que faz “sentido”. E o que faz sentido, muitas das vezes, é a pura anarquia.
É dizer o nome do outro e, no meio da confusão, ser a única voz que se distingue.
Por isso, não te poupes. Nunca. Entrega-te. Entrega-te com a sofreguidão de quem está a fazer as malas para ir embora no segundo a seguir e precisa de deixar todas as suas impressões digitais naquele instante.
Chora, ri, ofega, arranha, sê ridículo, sê sublime. Dá tudo, como se não houvesse amanhã nenhum à tua espera.
Respira.
Repete.
E, no fim, quando a paz se instalar e os corações acalmarem o galope descompassado no peito… fica.
“Fico.”
Fica enrolado nesses braços como se nunca, em tempo algum desta ou de outras vidas, tivesses estado noutro lado qualquer.
Fica como se o mundo inteiro fosse só ali.
E, naquele instante, é.
@almacaeira
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