Fronteira

Bateu a porta com força a mais. A respiração curta, entalada na garganta.

— Duarte. Duarte?

Eu estava na sala. Levantei os olhos.

— Guida. O que foi?

Ela andava de um lado para o outro. Com o casaco ainda vestido e os ruídos da rua engarrafados nela.

— O João. Lá do escritório. Cansa-me. Cansa-me a paciência toda. Acha que o mundo inteiro lhe pertence. Acha que tudo tem de ceder.

Acompanhei o movimento dela, focado nas suas mãos inquietas.

— E isso irrita-te. Porquê? — suspirei. — Está a provocar-te? Devo ter ciúmes?

Ela parou. Não fosse a gata a ronronar, só haveria silêncio naquele instante.

— Não.

Depois.

— Sim.

E logo a seguir, num sopro.

— Não. Chiça, Duarte! Ele não tem limites. Não tem modos nenhuns.

— Então. Se não estás irritada. Se ele só provoca. E se eu não devo ter ciúmes… — confesso que tive que me conter, porque eu não via nenhum problema e considerei que o problema dela era achar que eu assumiria a situação como um problema. — A liberdade não usa trela. Está tudo bem, Guida. Ignora.

A Guida olhou para o chão. Para a gata. Para a geometria da luz no chão e a sombra da gata.

— Devias ter ciúmes.

Afinal estava errado. O problema, a irritação dela, era de saber que eu não iria rotular esse acontecimento como um problema.

— Não. Ter ciúmes seria não confiar em ti.

Dizem do ciúme. Que é a sombra do amor. Mas o ciúme não é amar. É fechar a mão sobre a coisa. Ter, possuir. Ciúme é o contrário de confiar.

— E se eu não confiar em mim?

Ficou dito. O ar fechou-se, denso. A revelação de uma falha. Uma fissura. Andamos cheios de areia. Um deserto inteiro do lado de dentro da boca. Secura.

O hábito antigo de não ter água. E quando a água finalmente aparece. Quando há, de repente, uma nascente. A sombra onde repousar. Hesitamos.

— Se não confiares em ti? Nunca te vi insegura. Nunca te vi hesitar. Onde está a dúvida, Guida? Ela recuou um passo. Um passo mínimo, impercetível.

— Não sei. Não sei. A maneira como ele fala com as outras. Hoje, comigo… transbordei. Saltou-me a tampa. Só isso.

— Fronteira. Estabelece uma fronteira. Uma fronteira nunca é uma meta. É outra coisa.

Margarida conformou-se. Devagar. O corpo começou a perder a tensão.

— Sim. Não é para chegar. É para saber até onde se pode ir.

Aproximei-me e senti o ar menos denso.

— E eu, Guida. Até onde posso ir eu?

Ela levantou o rosto. A olhar-me nos olhos com facies atrevida.

— Até onde te levares.

Não. Não vou dizer para onde fomos.

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