Horizonte
Seis meses.A Cristiana deambula. Entre as quatro paredes, deambula. O olhar no chão. Aquele momento foi o princípio. Fechou-se nele e não saiu mais.
De noite, no quarto, despe-se com gentileza e sonha.
— Ela ainda o ama?
A voz da Margarida. O Duarte não olha para ela quando responde.— Não, Margarida. Ela está apenas lá atrás. Fixa no passado. Procura o lugar exato onde tudo se estragou. Como se pudesse voltar. Voltar a esse segundo.
— Alterar o que aconteceu. Não é, Duarte? Corrigir.
— Sim. Corrigir.
O silêncio. As paredes em volta deles, como as paredes em volta dela.
— Ela podia subir. — A Margarida diz. — Subir ao muro. Olhar por cima. Ver além.
— A memória não deixa. O peso da memória. O arrependimento prende-a ao chão.
— Mas ela sofre. Ela pensa que essa dor ainda é ele. Que ainda é o amor.
— Pensa. Mas engana-se. É o apego. É não suportar a falha. Saber que falharam. E a recusa. A recusa absoluta de aceitar.
O olhar inerte da Cristiana no corredor. A marcha interminável.
— Porque fazemos isso? O medo de estar só?
— O medo de ser imperfeita.
O Duarte diz isto devagar.
— É como o escuro. Ela tem medo do escuro. De dia ela caminha, mas quando a noite cai... deita-se. Finge-se de morta para não ter de ver a noite.
A Margarida olha a janela. A ausência.
— E a luz, Duarte? Não seria mais fácil acender a luz?
— Vai acontecer. Um dia. A mão dela a tatear a parede cega. A procura. O interruptor. O estalo da luz. E depois, o muro.
Ela vai saltar.
Abraçar um novo horizonte.
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