Acontece
Serras antigas. Tudo antigo. A pedra. A gente.
Eu cheguei da cidade. E o que estava gasto, o que estava há muito gasto, pareceu-me de repente intacto. Inédito.
Os novos já não estão. Partiram. Os que ficaram são o tempo. Os amores. Amores velhos, mas com o espanto do primeiro dia. Um cuidado que não envelhece.
Ermelinda. Tinha dezoito anos. O Orlando. Vinte e quatro. A capela da Senhora da Aparecida. Pequena. A aldeia pequena. O amor Grande.
Ele era só ele. Órfão de tudo. Restava-lhe a terra. A terra que lhe dava de comer.
Acreditamos, nós, que o passado era obediência. Os arranjos. Os pais a mandar. Emparelhar por medida. Ermelinda não. Escolheu. Casou na capela pequena. E o amor era enorme. Ocupava tudo.
Acreditamos também na sombra. No pudor escuro. O corpo fechado, escondido por sete saias. Temos em mente, que gente de outros tempos era pudica. Ermelinda ri-se. Um riso que vem de longe. Do fundo da garganta.
A rapaziada de agora não descobriu nada. Não há nada de novo debaixo dos lençóis. A diferença. O decoro, diz ela. Perdeu-se o decoro. E o desejo. A vontade. Para ela, o Orlando. Um garanhão. Diz a palavra devagar. Como já não há. O corpo dela, tão velho, ainda a lembrar-se. Mas o ventre. Nunca deu nada. Estava fechado. Hoje já existem tratamentos, mas não naquela época.
O medo. O terror silencioso de que ele se fosse embora. De que a deixasse. Um homem quer a semente. Ele não foi. Ficou. Sempre ficou. E um dia. Ermelinda sorri. Um sorriso enrugado. Quase menina, ele chegou-se perto e sussurrou-lhe da égua. A Castanha.
A Castanha também nunca pariu. Mas era a mais mansa. A mais forte. A que trabalhava mais. A melhor de todas elas. Ele disse isto. O amor era isto. A força pura do bicho. A verdade da terra. Não havia ofensa. Apenas a vida, crua. A compreensão intacta.
A aldeia antiga. O tempo antigo. Onde o amor não se explicava. Apenas resistia.
Dois anos. Foi quanto durou. Depois o barco. O ultramar. O Orlando levou a farda e foi.
A Ermelinda ficou. Quatro anos. Não se conta um tempo assim. A terra dura sob as mãos. Trabalhava por dois, de sol a sol. A terra ressequida. E essa mesma aridez dentro dela, debaixo da pele, a espalhar-se nas pernas, na barriga. A poeira no próprio corpo. Porque ele não estava.
Uma carta. De muito longe em muito longe, um papel escrito. A espera. Até que os passos voltaram. Um dia, era ele. A porta a fechar-se. Tudo de novo. A mesma porta para uma primeira noite. Novas núpcias.
A Ermelinda tem pressa de falar, agora. Desafoga-se. Atira as palavras. Fala do cinema. Daquele filme da lagoa. Diz que eles já sabiam. Antes, muito antes. Antes que o ecrã soubesse do amor, eles já o tinham feito. Lá em baixo. A ribeira. A água a rasgar a pedra, a abrir lagoas redondas. O verão quente. A água chamava-os. Ir às profundezas. Deixar a roupa na margem e ir.
Hoje vêm os outros. Os de fora. Turistas. O rio já não é o mesmo. Leva menos água, as lagoas encolheram. Mas os estranhos fazem igual. Descem pelas pedras. A Ermelinda passa e vê-os. Como vieram ao mundo. Nus, na água pouca. Como ela e o seu Orlando.
Confessa. Não sabe. Possivelmente as coisas não morram, talvez fiquem guardadas no tempo. Ou então é a aldeia. A natureza daquele chão. A água. O desejo agarrado à rocha, à espera de quem passe.
A vida, a insistir. A resistir.
E o amor a acontecer.
O desejo não é de hoje. A imaginação também não.
A Ermelinda diz isso.
Lembra o Manuel. O falecido Manuel. Caiu doente um dia. Uma coisa no estômago. Um nó cego por dentro, que o deixara magro.
Foi preciso a bruxa. Disseram que ela lhe arrancou o mal. Que o fez deitar fora. Ele gurgitou. Uma bola, uma bola de pelos.
Pelos curtos. Espessos. Gurgitou como um gato.
A aldeia benzeu-se. O Demo, disseram. Obra certa do diabo. Todos comentavam.
A Ermelinda sabe. As mulheres daquele tempo também sabiam.
O Manuel e elas. Ele punha-se de joelhos. Gostava de estar de joelhos. Pelos curtos.
A Ermelinda ri-se. Não diz a palavra. Fica só o riso.
O desejo já existia. Já se saltava a cerca.
O amor é antigo, como a aldeia. Mais antigo até que a aldeia. O adultério também. Antigo. Surgiu depois do amor, gémeo do desejo, primo da tentação. Por vezes vencia. Por vezes, ainda vence.
Para a Ermelinda, e para o Orlando, o amor venceu. Por culpa de ambos o desejo foi sempre satisfeito no seio do amor. E hoje é antigo, como eles, como a aldeia. Como muitos amores.
@almacaeira
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