"Não me parece digno, nem humano, nem sequer intelectualmente honesto, julgar o sofrimento dos outros sem primeiro o tentar compreender" – https://dezanove.pt/nao-me-parece-digno-nem-humano-nem-sequer-intelectualmente-honesto-julgar-o-sofrimento-dos-outros-sem-primeiro-o-tentar-compreender-2446898/
"Não me parece digno, nem humano, nem sequer intelectualmente honesto, julgar o sofrimento dos outros sem primeiro o tentar compreender" - Dezanove

Não conheço, no plano estritamente pessoal, nenhuma pessoa transexual. E há, nessa ausência de contacto direto, uma forma de reserva que não é timidez, mas consciência dos limites do olhar. Falar do que não se conhece sempre me pareceu um vício menor da inteligência e um vício maior da moral. De Montaigne herdámos a desconfiança perante as certezas apressadas; de Hannah Arendt, a intuição de que o pensamento, quando se divorcia da experiência, pode resvalar para uma banalidade perigosa. E, no entanto, a cultura, essa longa pedagogia da sensibilidade, tem insistido em mostrar-nos aquilo que a vida nem sempre nos dá a ver de perto. Penso, inevitavelmente, em “Comme ils disent”, de Charles Aznavour, onde a solidão e a dignidade de uma identidade dissidente se expõem sem estridência, num registo quase confessional. Não há ali panfleto, há humanidade. E talvez seja essa a primeira lição: antes da lei, antes do debate, existe uma vida concreta, irredutível a categorias. Entre nós, porém, a memória não é apenas estética, é também trágica. O nome de Gisberta Salce Júnior permanece como uma ferida moral aberta, um lembrete brutal de que a incompreensão pode degenerar em violência extrema. Não se trata de instrumentalizar um caso, mas de reconhecer que, por detrás de cada discussão abstrata, existem existências vulneráveis, expostas ao juízo e, não raras vezes, à crueldade. Também o cinema, com a sua capacidade singular de nos colocar dentro da pele do outro, tem feito esse trabalho de deslocamento. Em “Boys Don’t Cry”, acompanhamos a história de Brandon Teena, num retrato dilacerante de identidade e violência. “Transamerica” oferece-nos uma travessia mais íntima, onde a procura de si se cruza com laços familiares inesperados. Já “Orlando”, inspirado em “Orlando” de Virginia Woolf, desloca a questão para um plano quase metafísico, onde o tempo e o género se tornam fluidos, como se a identidade fosse, afinal, uma narrativa em permanente reescrita. Num registo mais contemporâneo, “Tangerine” restitui-nos a crueza e a vitalidade das margens urbanas, enquanto “Rūrangi” inscreve a experiência trans num contexto comunitário específico, recusando tanto a exotização como a vitimização simplista. E “The Danish Girl”, inspirado na vida de Lili Elbe, recorda-nos que esta não é uma questão recente, mas uma história longa de afirmação pessoal contra convenções sociais rígidas. E há, ainda, no contexto português, uma obra que não pode ser esquecida: “Morrer como um Homem“, de João Pedro Rodrigues. Nesse filme, a identidade surge como território de tensão entre o corpo, a fé, o amor e o tempo, recusando simplificações morais e estéticas. A personagem central move-se num espaço de ambiguidade que é, afinal, profundamente humano, onde a decisão de ser coincide com o risco de perder. É um cinema que não explica, antes expõe; que não resolve, antes inquieta. E talvez seja essa inquietação que mais falta faz ao discurso público. Tudo isto, dir-se-á, pertence ao domínio da arte. Mas talvez seja precisamente aí que a política deveria começar: na escuta atenta das narrativas que a precedem. Se tivesse responsabilidades legislativas, não ousaria votar sem antes cumprir esse exercício de aproximação. Não por deferência retórica, mas por exigência ética. Falar com pessoas, ouvir percursos, compreender dores e ambiguidades, aceitar que a realidade é sempre mais complexa do que qualquer formulação normativa. Legislar sobre Identidade de Género sem esse trabalho prévio é reduzir a vida a um conceito e o conceito a uma opinião. É transformar o Parlamento num espaço onde a palavra circula com a leveza inconsequente de uma conversa de café, esquecendo que cada frase pode ter consequências materiais na vida de alguém. Não me parece digno, nem humano, nem sequer intelectualmente honesto, julgar o sofrimento dos outros sem primeiro o tentar compreender. A política que abdica dessa humildade transforma-se numa coreografia vazia, onde se decide muito e se entende pouco. E talvez o mais inquietante seja precisamente isso: não a divergência, que é própria da democracia, mas a facilidade com que se opina sobre vidas que nunca se teve o cuidado de escutar. . Luís Galego (Imagem: The Danish Girl. Eddie Redmayne, interpretando Lili Elbe, nascida Einar Wegener)

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