Meus textos sobre Marty Supreme são, deliberadamente, óbvios. Foram escritos assim para escancarar uma leitura que considero equivocada de uma trama cuja crítica é tudo, menos sutil.

Há duas cenas, em especial, que gritam aos olhos do espectador quem é o protagonista que temos diante de nós. Para além de qualquer adjetivação possível, Marty é um boboca, soberbamente fútil e ególatra. A primeira dessas cenas ocorre quando ele insiste para que seu sócio relate uma experiência horrível, vivida de forma brutal, como se aquilo não passasse de um causo texano. A segunda se dá quando o próprio Marty admite ter sido vaidoso, soberbo e imaturo ao recusar não uma, mas duas propostas sólidas de emprego.

Sinceramente, se os detratores desse filme não são capazes de absorver o óbvio, pouco me convence a ideia de que tenham captado algo mais potente e sofisticado, como Agente Secreto.

O filme deixa claro que, para Marty, o esporte é algo essencialmente supérfluo. Sua motivação primeva é a vitória — uma sagração que só existe enquanto instrumento de autopromoção. Ao fim do confronto com Endo, torna-se evidente que ele apenas desejava vencer o adversário. Algo banal, quase pueril. Marty não percebe que, para os americanos presentes e, sobretudo, para os nativos do país onde o embate se dá, sua vitória representa mais uma humilhação imposta a um povo ainda fraturado, que encontrava naquele esporte em ascensão na Ásia uma forma pacífica de subversão.

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Para seu parceiro, um sobrevivente do Holocausto, o esporte foi aquilo que lhe permitiu permanecer vivo. Já para Endo, que viveu num Japão ocupado e se tornou deficiente auditivo em decorrência dos bombardeios da Guerra, tratava-se de um gesto de resistência — física, simbólica e histórica.

Surpreende-me que tantos não consigam captar o básico. Não há nada de revolucionário em Marty — e esse é justamente o ponto. Ele não é apenas um trambiqueiro, mas um manipulador narcisista e ególatra. Talvez seja por isso que a Netflix esteja fazendo o que está fazendo: orientando seus criadores a desenvolver roteiros e diálogos que expliquem as tramas reiteradamente, para que o espectador saia da experiência plenamente ciente do que viu, sem que reste qualquer sombra de dúvida. Sabem com quem estão lidando: um público desatento, de repertório mínimo e pouco — ou nada — questionador.