Marty Supreme transcorre em 1952, sete anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Marty já tinha 16 anos quando os horrores cometidos pela autodeclarada raça superior vieram à tona. Um bando de ressentidos invejosos que desprezavam os judeus por terem lidado relativamente bem com a dissolução do Império Austro-Húngaro, decorrente da derrota na Grande Guerra, e, posteriormente, com os efeitos da crise de 1929, que agravou drasticamente a hiperinflação da já debilitada República de Weimar.

Marty é um gênio do tênis de mesa — um esporte que, assim como ele e sua etnia, é desprezado por aqueles que regem a história e o destino do mundo a partir de seus luxuosos gabinetes.

Não é à toa que os dois maiores jogadores representados no filme sejam, respectivamente, um judeu e um japonês. O Japão, integrante do Eixo, estuprou e escravizou barbaramente os povos do Leste Asiático que conseguiu sobrepujar, até ser covardemente "posto em seu lugar" por Little Boy e Fat Man.

Vemos aqui um jovem que, ciente de sua grandeza, diante de um mundo que, até menos de uma década antes, tentou por todos os meios possíveis impingir no consciente coletivo a ideia de que sua raça era composta por ratos e baratas, faz de tudo para se destacar mundialmente e não sofrer as intempéries às quais seu povo fora submetido pouco tempo antes — mas que, tragicamente, mesmo no pós-guerra, ainda persistem (vide Ida, de Pawel Pawlikowski).

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O erro de Marty Mauser — assim como o do Império Japonês pré–Fat Man e Little Boy — é a arrogância desmedida que o leva, irremediavelmente, a passar por cima de tudo e de todos para alcançar a sagração de seus objetivos, inclusive descartando a legitimidade que a herança sanguinária de seus antepassados poderia oferecer ao tentarmos compreender — ainda que não justificar — as razões que o fazem ser e agir assim.

Eu sou negro e talentoso. Entendo a arrogância de Marty. Principalmente quando vemos idiotas desprovidos de qualquer repertório e finesse galgando altos postos na piada de sociedade em que vivemos. Entretanto, não é sugando e descartando os nossos que reverteremos a situação em que fomos condicionados.

A dificuldade de profissionais do campo cinéfilo em compreender uma crítica tão escrachada — literalmente verbalizada em dado momento da narrativa — só contribui ainda mais para o meu desencanto diante dessa sociedade frágil que, quanto mais os dias e semanas passam, evidencia o quanto a dissolução é inevitável.

É… eles tentaram.