O que mais me deixa apavorade é o monte de gente cisdissidente que acha que tá tudo bem. "Ah, mas não faz parte das normas gramaticais mesmo", "bom, é importante deixar a linguagem simples para todo mundo entender"...
Nunca existiu nenhuma norma ditando o uso da neolinguagem em tais documentos. Ainda é algo muito pontual (e, quando redigido por pessoas que não usam neolinguagem no dia-a-dia, mal feito).
O uso da neolinguagem em documentos oficiais sempre foi uma iniciativa individual que muitas vezes era editada fora do documento final.
Mas o governo validou *nacionalmente* um argumento que justifica a maldenominação de uma população vulnerável.
O governo está passando a mensagem: é mais importante proteger a língua de variações gramaticais do que questionar o exorsexismo e o machismo embutidos em tal língua.
O governo está passando a mensagem: é mais importante proteger populações que não são familiarizadas com ou que não estão confortáveis com uma forma de escrever e falar que advém de comunidades cisdissidentes e feministas do que validar os pontos levantados por essas lutas problematizando a língua padrão.
Além disso, vários dos termos usados para orientações, identidades de gênero e conceitos relacionados com justiça social não estão oficialmente inclusos na língua padrão. A lei em questão só fala de flexões gramaticais, mas ela abre um precedente para evitar (ou quem sabe, eventualmente, proibir) engajar em ações que valorizem várias formas de diversidade, porque a linguagem "precisamos manter uma linguagem simples para facilitar a comunicação e alcançar pessoas normais" não é só usada para silenciar usuáries de neolinguagem.