Na crónica desta semana, Miguel Correia faz uma reflexão crítica sobre a inteligência artificial, a escrita moderna e a perda de autenticidade na era do copy-paste digital.

#inteligenciaartificial #artigodeopiniao #escrita #literatura #tecnologia

https://www.leca-palmeira.com/eu-sem-ser-eu/

Eu, sem ser eu

O panorama das artes tornou-se um autêntico desfile de vaidades digitais, onde o talento foi substituído por um copy-paste bem polido. Hoje, qualquer sujeito que saiba carregar no "Enter" sente-se ungido pelo génio literário, autoproclamando-se o próximo Nobel enquanto espera que o software lhe

Leça da Palmeira

Nao procures mais montras

— Tens medo?

— Sim. Medo de não dar certo…

— Eu também.

É bom ter medo. Acredita em mim, é maravilhosamente humano ter medo. Só temos medo de perder aquilo que é mesmo importante. Daquilo que vale a pena. O resto são adornos. Mariquices para preencher os dias. Disfarçam as rugas, completam a toalete para que o mundo ache que estamos inteiros, dão uma falsa sensação de preenchimento, mas não substituem o que nos faz tremer.

— Já perdi brincos… — agora que penso — eram bonitos. Eram brilhantes. Mas fiquei sem eles e não doeu. É um facto. Fiquei sem eles e não havia o medo de os perder antes de irem.

— Já perdi amigos assim, Ana.

— Assim como?

— Subvalorizados. Brilhavam muito na vulgaridade dos dias e valiam pouco, nesses momentos de raridade em que necessitas de um abraço. Cairam, por aí, e eu não me baixei para os apanhar.

O que cai e não faz falta, varre-se.

Se tens o que precisas, já tens o que realmente queres. Não procures mais montras. Fica com o essencial. Fica com essas “coisas” que nos fazem suar. Fica com essas pessoas que te deixam sem futuro só de imaginar um amanhã sem elas. É esse o medo. O pânico de perder o que nos faz sentido.

Se não te dá medo, não vale a pena. São adornos.

Eu tenho medo. Muito medo. E dou graças a Deus por isso.

@almacaeira

#amor #AmorPróprio #éAmor #éUrgente #escrita #Romance

Não sejas a outra

Diz basta. Tens de conseguir dizer basta. Olha-te ao espelho, bem lá no fundo da íris, e diz basta. Não fiques aí, encostada à parede fria do segundo plano, a contar os minutos de uma vida que ele não vive contigo.

Não sejas o intervalo.

Não sejas a sobra.

Não sejas a sobremesa quando nasceste com o direito absoluto de ser a refeição inteira. O banquete. A fome saciada de quem não consegue viver sem te provar.

​Eu sei que é complicado. A porcaria da atração e do amor complicam tudo. E ele pede-te tempo. “Dá-me tempo”, e tu dás. Dás-lhe o tempo, dás-lhe o corpo, dás-lhe os dias que nunca mais voltam.

“Um dia vamos estar juntos”. Um dia. É sempre esse maldito e inalcançável “um dia”. Queres acreditar, precisas desesperadamente de acreditar. Tens de acreditar precisamente porque sabes, nas entranhas, que é o maior erro da tua vida. Tens de acreditar porque tu, feita dessa matéria rara que se entrega, jamais cometerias tal erro. Jamais farias alguém esperar na sala de embarque de um voo cancelado.

​Então dás-lhe tempo. Para que o erro se torne verdade. Para que a ilusão ganhe vida. Porque te disseram, desde pequena, que vale a pena lutar por amor. E lutas. E sangras. E engoles o choro. E esperas. E o basta fica engasgado na garganta como uma espinha seca. Agora não, dizes tu a ti mesma, num autoengano patético. Dá-lhe só mais um bocadinho de tempo.

​E vais vivendo assim. Fugida de ti própria. Escondida do mundo. Disfarças o sorriso, dissimulas o olhar quando estás com os teus amigos, inventas desculpas que nem tu compras para o defender. “Ele anda muito ocupado, ele não tem tempo, não tem espaço na vida agora”, ouves-te dizer. Mentiras. Quando dorme contigo, nunca fica, não passa a noite, não passa o fim de semana, não fica. Tem sempre que fazer. Mentiras

Vives dentro de uma mentira, que repetes como um mantra doentio quando acordas, uma mentira que rezas como se fosse a tua salvação instantes antes de o sono te engolir a razão.

​Até que o “um dia” chega. Mas nunca é o teu dia. Chega o dia em que ele, o eterno insatisfeito, muda de sobremesa. Troca de restaurante. Senta-se noutra mesa, pede outra ementa, lambuza-se noutra ilusão. E tu ficas. Ficas com a mesa posta a rigor. Com o repasto farto da noite anterior a arrefecer, à espera daquele que nunca teve a coragem, nunca teve a decência, nunca teve o tempo de te tomar por inteira.

​Acabou.

​Levanta-te. Pega nesses pratos frios, raspa as migalhas dessa esperança inútil para dentro do caixote. Lava a loiça suja das promessas dele. Fecha a despensa a sete chaves para que a saudade não vá lá roubar mantimentos. Tira o lixo fora. Deita-o fora. Tranca a porta com força. E pendura, bem no centro do teu peito, a tabuleta definitiva:

​”Fechado para remodelação“.

@almacaeira

#amor #éAmor #éUrgente #escrita #Romance

palerma

A mensagem saiu via WhatsApp. Mas, como estamos em Portugal, segue o percurso dos CTT, demora a ser lida.

Não colei bem o selo? Foi para a morada errada? Aqui tudo pode acontecer, já se sabe que no amor também há pirataria. Um pretendente que desvia a correspondência, um carteiro mal-intencionado, um atraso por greve.

Cinco minutos.

Trezentos segundos.

Ainda não tem um visto de leitura. Muito menos uma resposta. E eu sem ter com quem reclamar.

É WhatsApp. Não posso ir aos correios explicar que aguardo, há uma eternidade, a resposta do meu amor.

Trezentos e cinquenta e dois segundos agora. Eu à espera.

Deveria ter um WhatsApp azul, desses que chegam mais rápido. O pensamento é parvo. O amor é parvo. Eu estou a ser parvo.

Palerma.

Estamos em Portugal, estamos cheios de palermas e eu faço parte desse grupo. Dos apaixonados. Dos palermas. Dos palermas apaixonados.

E isso é estúpido.

E isso é amor.

@almacaeira

#amor #escrita #Livros #Romance

Acreditar

Ele disse “não és tu, sou eu”.

E pela primeira vez… ambos acreditaram na mesma mentira.

@almacaeira

#amor #escrita #Livros #Romance

A dor

— o que é que dói mais Duarte? Ficar, ou ir?

— Voltar e já não ser igual.

@almacaeira

#éUrgenteéAmor #escrita #livro #Romance

Fica

Amar é, na sua essência, a mais frágil e perigosa sucessão de perguntas. Fazer amor também.

“Entras?”

Mas entras na minha confusão? Nos meus traumas? Nos escombros daquilo que sobrou de mim?

“Posso?”

Posso desarrumar-te a vida? Posso despentear a tua perfeição?

“Ficas?”

Mesmo depois de errar? Mesmo quando a madrugada trouxer a luz fria da realidade e os nossos medos ficarem todos à mostra?

“Queres?”

Queres estar comigo?

É isto. Fazer amor é, irremediavelmente, o fim do controlo. O controlo é para quem conduz no trânsito, com semáforos e regras, não para quem se atira de olhos fechados nos braços do outro. Se, naquele instante de colisão, tu ainda sabes de que lado está o norte, se controlas a cadência da tua respiração e sabes exatamente onde tens cada um dos dedos — lamento, mas não fizeste amor. Fizeste ginástica. Uma coreografia. E uma coreografia pode ser esteticamente irrepreensível, pode ser de uma precisão bonita, calculada, fotogénica. Mas a perfeição não preenche buracos na alma. O que preenche é a falha. O sujo. O percalço. O caos glorioso de duas pessoas que, de repente, não sabem onde começa a respiração de uma e acaba o batimento cardíaco da outra.

Fazer amor é falhar maravilhosamente a ordem das coisas. É mandar a lógica dar uma volta para deixar a urgência governar. É trocar o que está “certo” pelo que faz “sentido”. E o que faz sentido, muitas das vezes, é a pura anarquia.

É dizer o nome do outro e, no meio da confusão, ser a única voz que se distingue.

Por isso, não te poupes. Nunca. Entrega-te. Entrega-te com a sofreguidão de quem está a fazer as malas para ir embora no segundo a seguir e precisa de deixar todas as suas impressões digitais naquele instante.

Chora, ri, ofega, arranha, sê ridículo, sê sublime. Dá tudo, como se não houvesse amanhã nenhum à tua espera.

Respira.

Repete.

E, no fim, quando a paz se instalar e os corações acalmarem o galope descompassado no peito… fica.

“Fico.”

Fica enrolado nesses braços como se nunca, em tempo algum desta ou de outras vidas, tivesses estado noutro lado qualquer.

Fica como se o mundo inteiro fosse só ali.

E, naquele instante, é.

@almacaeira

#amor #Caos #confiança #escrita #Livros #Romance

sim

A primeira carta de amor que te escrevi não tinha versos. Era apenas um pedaço de papel rasgado de um caderno pautado, com a caligrafia trémula. Dizia apenas isto:

​«Podemos falar no recreio?»

​Não houve correio, não houve selos nem as demoras das coisas oficiais. O carteiro fomos nós. Passou de mão em mão, por baixo das carteiras, num contrabando silencioso de sentimentos, enquanto o professor explicava uma matéria qualquer que, para mim, tinha pura e simplesmente deixado de existir. Era a minha vida inteira ali, vulnerável, dobrada em quatro. A caminho de ti.

​A folha voltou. E a tua resposta foi um não.

​Cru. Frio. Definitivo.

​Um tropeção a meio de uma corrida em que eu já me via, vitorioso, a cortar a meta.

​Nesse exato momento, sem que eu soubesse a teoria das coisas, já era amor. Como é que eu tinha tanta certeza? Porque me partiu ao meio. Porque nesse milésimo de segundo senti uma dor física, aguda, dilacerante. A dor é, quase sempre, assinatura do amor. Quem não sangra por dentro, não ama. Fui adulto de repente, ali, de pé no meio do pátio, a tentar perceber o não.

​O teu não escondia algo. O teu não era o medo a pedir-me em surdina que eu insistisse mais um pouco.

​E sim, depois foi o sim.

Encontrámo-nos. Escondidos de todos os olhos, refugiados da normalidade entorpecente dos dias, naquele canto escuro junto à livraria. O cheiro a papel velho, a pó de histórias antigas, a misturar-se com a nossa história em construção. Não havia mais recados, não havia mais intermediários, nem o escudo seguro de um papel.

​Estavas ali. Estávamos ali.

​E a certeza absoluta, inabalável, de que todos os «nãos» do mundo não servem de absolutamente nada quando dois olhares se cruzam no escuro e decidem que sim.

@almacaeira

#amor #escrita #Livros #Romance

Correria

Não se corre atrás do amor. Isso é um erro de principiantes, um engano de quem acha que os sentimentos são coisas que se caçam a laço.

O amor esbarra em nós. Atropela-nos. E só depois, só com o corpo partido pela surpresa, é que começamos a correr. Corremos como loucos, não para o apanhar, mas para não o deixar fugir. Corremos para que ele, o amor, não se esqueça de continuar a acontecer.

Com a Margarida foi assim. Aconteceu-me.

Não a procurei, juro-te que não. Aconteceu-me como um cataclismo bom, num daqueles dias gastos de um fim de adolescência cheio de espinhas na alma e futuro incerto. Naquela altura, a única corrida que o meu corpo conhecia era a do pavilhão lúgubre de ginástica. E, mesmo essa, era arrastada, suada, cumprida por mera obrigação. Eu não era um homem de correrias. Era um homem de pausas. Até que a Guida aconteceu. E não houve anjos a tocar trombetas. Não houve fadas madrinhas encostadas aos cacifos, nem o alinhamento perfeito de astros num épico destino traçado pelos deuses. Houve, sim, uma esferográfica. Uma simples, banal e milagrosa Bic. Uma caneta azul que ela, com a arte toda de quem sabe que a gravidade é a melhor desculpa para um toque, treinava meticulosamente em deixar cair. E eu, no meu papel de idiota útil, de bom samaritano com os olhos colados no chão, treinava em me baixar para a apanhar e, cá entre nós, olhar as suas pernas. O romantismo não estava escrito nas constelações. Estava no plástico trincado de uma caneta, e nas suas pernas.

E depois? Depois do embate, depois de o amor me entranhar nas veias, transformei-me. Um Forrest Gump dos sentimentos. Já lá vão vinte anos. Mais de vinte anos com os pulmões a arder, a correr. E continuo a correr. Por ela. Por nós. Por esta urgência de não a perder.

Não me considero um maratonista, repara. Amar não é uma prova de fundo linear, daquelas em que basta ter pernas e resistência para cortar a meta. Correr por amor é um desporto muito mais perigoso. É um pentatlo no escuro. Exige o rigor técnico e a loucura cega de um acrobata que salta sem rede de segurança. Um passo em falso, um olhar mal interpretado, uma palavra dita a destempo, e caímos.

Confesso-te o meu maior terror: já tive medo de acordar morto. Morto por dentro antes sequer do fim do corpo. O medo atroz de as pernas da alma cederem. Tinha pesadelos em que o tempo me roubava o fôlego, o pavor de envelhecer e já não ter força para acompanhar a passada dela. De falhar a corrida porque a biologia, essa cabra, também falharia. Mas descobri, entre os suores frios dessas madrugadas, o paradoxo perfeito: a Guida é o meu veneno. E é, ao mesmo tempo, a minha única medicina. É a febre que me consome e o abraço que me cura. É por isso que continuo sem falhar. A correr. Sempre.

E ela? Ela recusa-se a falhar. Pelo contrário. A Guida está cada vez mais viva, a transbordar de uma luz que quase me cega se olhar de frente. Despiu-se dos pijamas de flanela. Deixou os medos amontoados no tapete da entrada, como sapatos velhos que já não lhe servem. E, o mais assombroso de tudo… nunca me deixou. Nos dias de tempestade e nos dias de sol, nunca me soltou a mão no meio desta corrida alucinante.

A urgência… essa urgência voraz que nos aperta a garganta e nos faz querer sempre o próximo segundo, essa mantém-se intacta. É a prova cabal, inegável, de que o amor verdadeiro não é um bicho que se domestica. O que muda é a luz que entra na sala, o ângulo das rugas que nos desenham o rosto, a perspetiva de alguns acessórios estéticos que o tempo nos vai colando. Mas o ímpeto? O epicentro do terramoto que nos une? Esse não mexe.

O perfeito não existe como destino final. O perfeito nunca é suficientemente perfeito, porque quem ama sabe que há sempre, mas sempre, capacidade para espremer mais uma gota de intensidade.

O amor é isso mesmo. É ter a coragem de arranjar espaço para mais, de alargar os pulmões, nesta interminável corrida de urgências onde o coração é, e será sempre, o músculo que mais corre.

@almacaeira

#amor #ConexõesVerdadeiras #escrita #Livros #Romance