Correria
Não se corre atrás do amor. Isso é um erro de principiantes, um engano de quem acha que os sentimentos são coisas que se caçam a laço.
O amor esbarra em nós. Atropela-nos. E só depois, só com o corpo partido pela surpresa, é que começamos a correr. Corremos como loucos, não para o apanhar, mas para não o deixar fugir. Corremos para que ele, o amor, não se esqueça de continuar a acontecer.
Com a Margarida foi assim. Aconteceu-me.
Não a procurei, juro-te que não. Aconteceu-me como um cataclismo bom, num daqueles dias gastos de um fim de adolescência cheio de espinhas na alma e futuro incerto. Naquela altura, a única corrida que o meu corpo conhecia era a do pavilhão lúgubre de ginástica. E, mesmo essa, era arrastada, suada, cumprida por mera obrigação. Eu não era um homem de correrias. Era um homem de pausas. Até que a Guida aconteceu. E não houve anjos a tocar trombetas. Não houve fadas madrinhas encostadas aos cacifos, nem o alinhamento perfeito de astros num épico destino traçado pelos deuses. Houve, sim, uma esferográfica. Uma simples, banal e milagrosa Bic. Uma caneta azul que ela, com a arte toda de quem sabe que a gravidade é a melhor desculpa para um toque, treinava meticulosamente em deixar cair. E eu, no meu papel de idiota útil, de bom samaritano com os olhos colados no chão, treinava em me baixar para a apanhar e, cá entre nós, olhar as suas pernas. O romantismo não estava escrito nas constelações. Estava no plástico trincado de uma caneta, e nas suas pernas.
E depois? Depois do embate, depois de o amor me entranhar nas veias, transformei-me. Um Forrest Gump dos sentimentos. Já lá vão vinte anos. Mais de vinte anos com os pulmões a arder, a correr. E continuo a correr. Por ela. Por nós. Por esta urgência de não a perder.
Não me considero um maratonista, repara. Amar não é uma prova de fundo linear, daquelas em que basta ter pernas e resistência para cortar a meta. Correr por amor é um desporto muito mais perigoso. É um pentatlo no escuro. Exige o rigor técnico e a loucura cega de um acrobata que salta sem rede de segurança. Um passo em falso, um olhar mal interpretado, uma palavra dita a destempo, e caímos.
Confesso-te o meu maior terror: já tive medo de acordar morto. Morto por dentro antes sequer do fim do corpo. O medo atroz de as pernas da alma cederem. Tinha pesadelos em que o tempo me roubava o fôlego, o pavor de envelhecer e já não ter força para acompanhar a passada dela. De falhar a corrida porque a biologia, essa cabra, também falharia. Mas descobri, entre os suores frios dessas madrugadas, o paradoxo perfeito: a Guida é o meu veneno. E é, ao mesmo tempo, a minha única medicina. É a febre que me consome e o abraço que me cura. É por isso que continuo sem falhar. A correr. Sempre.
E ela? Ela recusa-se a falhar. Pelo contrário. A Guida está cada vez mais viva, a transbordar de uma luz que quase me cega se olhar de frente. Despiu-se dos pijamas de flanela. Deixou os medos amontoados no tapete da entrada, como sapatos velhos que já não lhe servem. E, o mais assombroso de tudo… nunca me deixou. Nos dias de tempestade e nos dias de sol, nunca me soltou a mão no meio desta corrida alucinante.
A urgência… essa urgência voraz que nos aperta a garganta e nos faz querer sempre o próximo segundo, essa mantém-se intacta. É a prova cabal, inegável, de que o amor verdadeiro não é um bicho que se domestica. O que muda é a luz que entra na sala, o ângulo das rugas que nos desenham o rosto, a perspetiva de alguns acessórios estéticos que o tempo nos vai colando. Mas o ímpeto? O epicentro do terramoto que nos une? Esse não mexe.
O perfeito não existe como destino final. O perfeito nunca é suficientemente perfeito, porque quem ama sabe que há sempre, mas sempre, capacidade para espremer mais uma gota de intensidade.
O amor é isso mesmo. É ter a coragem de arranjar espaço para mais, de alargar os pulmões, nesta interminável corrida de urgências onde o coração é, e será sempre, o músculo que mais corre.
@almacaeira
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