E os pensamentos em dominó, igual contra igual
Sou o tipo de pessoa que gosta imenso de guardar as palavras dos outros para compreendê-las depois. Ontem à noite, enquanto tomava um delicioso caldo de massa — uma velha tradição da minha família —, pesquei algumas palavras soltas no ar. Soaram interessantes.
Acho peculiar como as pessoas gostam de falar de seus sonhos. Essa coisa etérea que, às vezes, parece impossível de realizar. São apenas sonhos, justificam-se. Como se não houvesse muito o que fazer por eles. Eu não sou uma pessoa de sonhos. Sou de projetos, propostas e planos. Tudo o que faço é amparado nas minhas vontades e desejos. Preciso de paixão para investir o melhor de mim em algo. Preciso das minhas emoções mais sinceras para viabilizar qualquosa — seja este texto ou o preparo de uma simples panzanella. Sem paixão, não reúno meia dúzia de palavras ou de ingredientes.
E foi no meio dos sonhos de outra pessoa que nasceu a Scenarium, esse projeto a quatro mãos que hoje vive seu momento mais delicado. A maioria das pessoas pensa que a editora é uma invenção minha. Estão enganadas. Quem engendrou tudo foi o Marco Antônio. Ele viu potencial na ideia que criei, no início, apenas para os meus livros.
Foi através dele que a Scenarium virou multidão. Ele cuidou de tudo: a escolha do papel para o miolo, a capa, o tipo de agulha e a furação. Reuniu um bando de doidos. Foi divertido acompanhar os processos de um homem dos engenhos. Tudo nele passava por gabaritos, milimetricamente planejado, cheio de cálculos. A arte dele era exata; a minha, bem diferente.
As coisas aconteceram a partir da belíssima combinação entre o real e o imaginário. Eu pensava algo. Ele tornava possível.
Fui convencida durante diálogos à mesa de um café, entre as esquinas da cidade, sobre a maravilha de um projeto artesanal. Ele nem precisou de esforço para me ganhar. Eu selecionaria os textos e prepararia o material. Ele faria a impressão, as dobras e os furos. Depois, eu costuraria. Para mim, era puro experimento. Para ele, o oposto.
Treze anos se passaram. Ele tinha calculado que seriam necessários dez anos para a Scenarium se estabelecer como uma nova via no mundo literário. O que ele deixou de calcular foram os imprevistos da realidade. Passei um bom tempo pensando no que fazer com a editora agora. Não tenho problemas em desistir ou abandonar projetos. São verbos que gosto de conjugar. Mudei de profissão, de país, de roupas e de opinião.
Ainda não sei se sou capaz de continuar com a Scenarium sozinha. É algo que preciso descobrir no tempo certo do mio cuore. Enquanto isso, sigo fazendo o que sei fazer de melhor: experimentar.
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