A privada foi inventada pelos monarcas, mas ainda assim acolhe muito bem o traseiro da plebe, sendo uma ótima solução para saneamento básico. não há nada que conecte de maneira permanente e eterna as coisas com o contexto que elas foram criadas.

Ontem, conversando com um colega da AYOM me surgiu esse pensamento acima e fiquei com vontade de desdobrar ele mais aqui

Isso significa que nada garanta que no ano 2304 as pessoas acreditem que o Temaki foi inventado em Votuporanga e os chamem de Rolinhos de Votu.

Decorre disso o que se chama de apropriação cultural, o que não é em si mesmo necessariamente algo negativo a menos que promova o apagamento e subsequente esvaziamento de riquezas culturais de grupos minoritários.

Mas como pau que bate em chico bate em Francisco, é esse mesmo fato que possibilita o uso de ferramentas e sobretudo de teorias a despeito do contexto em que foram inventadas.
Por exemplo, não se costuma dizer mas o Partido Republicano de Trump nos EUA era na verdade do lado a favor da abolição da escravidão, enquanto o democrata, de Obama, era contra.

Hoje em dia, costumamos pensar os militares como sendo uma instituição intrinsicamente de direita. Mas nem sempre foi assim. Houveram muitos movimentos comunistas dentro do exército durante a história, como a coluna Prestes (do Luís Carlos Prestes, filme Olga).

Isso aconteceu tantas vezes que acabaram por fazer uma doutrinação de direita dentro dos exércitos.

Mas basta pensar em como na Venezuela, por exemplo, Chaves e Maduro só existem pelo apoio do exército, que é de esquerda.

No momento em que nos encontramos, não é assim que se costuma entender as coisas. Coisa e contexto estão intrinsicamente fundidas. Se um autor inventa uma teoria, mas maltratava velhinhas, logo a teoria deve ser descartada porquê ela também vai nos levar a maltratar velhinhas.

Isso nos impede de sermos criativos e darmos usos distintos ao nos é dado.

Aliás, leiam isso com atenção: as vezes é uma estratégia extremamente eficaz ouvir de forma ingênua e literal o que é dito com segundas intenções.

Podemos tirar vantagem de certos discursos que sabemos que enunciam uma coisa, mas no final querem dizer outra. Nos fazendo de ingênuos, podemos subverter o sistema por dentro. Isso não vale apenas politicamente, mas também em situações controversas na vida pessoal.

Isso é muito poderoso por exemplo no meio corporativo. Não é curioso como os discursos que vigoram são sempre os do otimismo, da equipe, do coletivo, do trabalho em conjunto, da eficiência, do ajudar o próximo, etc, mesmo que na prática saibamos que isso não passa de uma máscara pra encobrir algo terrivelmente individualista e ineficaz?

Até que surge alguém que por ingenuidade acredita de verdade em tal discurso e põe em cheque decisões tomadas e por vezes se saem por cima ainda assim.

É porquê aquele enuncia algo, ainda que da boca pra fora, havendo quórum suficiente, tem que se prestar com o aquilo que disse.

Aliás eu acho isso um fato pouco explorado: o fato de que havendo quórum suficiente, ninguém pode simplesmente agir de forma cruel e injusta. É pelos cantos que a maldade encarna sua face sem máscara. Nas multidões ela tem que se travestir de algo minimamente bom. E eu acho que é aí que mora a grande sacada.

Tem que ser hábil, mas dá pra fazer coisas incríveis sabendo o que dizer e onde dizer. A bondade necessária de todo discurso coletivo, virada contra ele mesmo, no público certo e na maneira certa é como o golpe de judô que nada mais faz do que reenviar para o oponente o próprio golpe que ele enviou. E isso é pouco pensado enquanto estratégia política.