Em tudo… a cor e a vontade de ver além das distâncias..
Outro dia me questionaram a respeito da culinária… Não sei cozinhar por obrigação — aliás, não sei fazer nada a partir dessa palavra, que provoca redemoinhos no estômago. A primeira lembrança que tenho da cozinha é com a C., que não sabia cozinhar um ovo. Sua arte era outra. Mas até hoje ninguém conseguiu preparar um leite caramelizado igual ao dela. É um desses sabores da infância que, vez ou outra, me invadem e me levam pelas mãos de volta para casa. Não trocaria essa sensação por nenhuma outra. É aconchego. É cuidado. É afeto… Tudo isso e muito mais…
E tem a cozinha da nonna… com seus muitos sons. Era o meu lugar preferido durante o verão. Esticava o nariz no ar para farejar e distinguir os aromas. De ervas para o chá e para os pratos. Aprendi com ela a colher no instante do preparo. Nada de recorrer ao artificial. E não importava onde eu morasse — tinha que improvisar uma pequena horta com ervas…
Aprendi com ela que não importam as receitas, apenas os ingredientes. A maneira de combiná-los é particular. Cada um tem o seu jeito. Não é algo tão simples ou fácil. É preciso se conhecer. O que gosta e o que não gosta. As vontades que se precipitam na língua e nos fazem dizer em voz alta: hoje eu comeria um omelete. Se antecipar é um dos segredos, ouvi de mio babo.
Quando ele dizia “hoje vou fazer pesto“… eu sorria! Antecipava os movimentos todos. O soltar das folhas do manjericão, que era a melhor parte. A maneira como ele colocava a água para ferver e escolhia a massa. Algumas coisas eu aprendi e repito. Outras são apenas minhas e não divido com ninguém.
Alguém levantou o questionamento: para quem você irá deixar tudo isso? Eu sorri por dentro… por saber a origem daquela bobagem. Como não tenho filhos, não tenho para quem deixar. Tolice! Algumas heranças a vida escolhe onde semear…
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