14 | Sou eu — esta mulher que anda comigo
Caríssima, há pouco, respirei fundo e senti no ar um aroma conhecido. A memória se agitou feito um cão no pós-banho. Coloquei a chaleira no fogo. Os rituais foram se precipitando em mim. Pensei nos poemas de Eliot, lidos em abril — o mês que passou a pertencer ao poeta inglês há tempos. Senti nos lábios o sabor do bolo de fubá feito pelo mio babbo. Ele cortava o bolo em quadradinhos e guardava em uma lata em cima da pia, bem ao alcance das mãos. Coisa que aprendeu com a nonna.
Esses aprendizados são maravilhosos. Você deve ter os seus, imagino. São colecionáveis e despertam em diferentes momentos do dia. Chegam sem aviso, sem alarde, oferecendo qualcosa de aconchego.
Mais tarde, quando passar a limpo estas linhas, sentirei tudo de novo. Aviso que este diálogo poderá se dissolver e se juntar à pilha de “cartas não enviadas”, uma coleção que gosto de manter. Tenho uma dúzia de envelopes lacrados com um único destino: o meu velho baú artesanal de madeira, feito pelo Marco. Acho poético, admito! Como tantas outras coisas na minha realidade. Ainda mais sendo segunda-feira, esse dia lunar que não existe sem poesia.
Aliás, não sei se contei: foram os versos que me apresentaram ao outono. Antes, a estação inexistia para mim. Não era nem mesmo uma palavra. Foi através de um poema lido por outra pessoa que a palavra-estação ganhou contornos em mim.
O outono é uma estação da alma. Todas as outras são do corpo. Elas não podem ser medidas por calendários. Neste ano, notei o outono em meados de fevereiro e disse em voz alta: “A estação está mudando”. Quem ouviu, não entendeu. Você também se confundiu com as datas e o mês. Imagino que deve ter sentido a mudança ao varrer o quintal.
Há pessoas que nada sentem. Não reparam na mudança, e eu lamento por elas. Distanciaram-se de si e do lugar. Parecem criaturas sem conexões reais, tragadas por uma rotina artificial.
Eu me lembro da primeira vez que vi uma flor sorrindo no quintal. Sorri junto e chorei ao perceber cada detalhe. Até então, eu sabia apenas a palavra “flor”. A partir daquela manhã solar, soube muito mais. Foi como reaprender a escrever. Três consoantes e uma vogal.
Fui aconselhada a não perder essa emoção. É engraçado: ao abrir a porta, corro para espiar o quintal. Floresceu o manacá! Enquanto a dama das cores se ocupa de contá-las, eu me detenho em percebê-las. Não existe flor igual a outra. Elas mudam em dia, horário, cores e substância.
Quando o dia é ensolarado e de céu azul, a flor é uma. Quando há nuvens, ela já é outra.
Grata pela companhia dentro destas horas tão azuis. Espero que minhas palavras a encontrem entre o ontem e o hoje. Não se atreva a saltar para o futuro, onde não se pode viver em queda. Afinal, você vive no meu passado, semeando as poesias de sempre.
Au revoir.
#52missivas #CartasNãoEnviadas #Correspondência #Cronicas #Outono #PoesiaDoCotidiano







