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Amanhã é dos loucos de hoje…
Cai a noite… que está fria, como tanto gosto. Alguns assuntos foram postos à mesa, durante o jantar. E eu tentei fechar-me em concha. Não me misturar, não me esparramar. Ando com pouca (ou nenhuma) disposição para esculpir em pedras. Prefiro ouvir. Deixar o outro apontar suas opiniões…
Exibo um sorriso branco, sem graça. Respiro fundo e procuro por uma rota de saída. Antes que eu conseguisse escapar, dessa vez, ouvi a frase espocou nos ares: “não sei para que ainda existem Bibliotecas”…
Deu para ouvir um trovão por dentro. A voz de C emergiu poderosa lá do fundo, em tempo: r.e.s.p.i.r.a… Não foi fácil domar meus leões. Respirei fundo e me despedi com abraços e sorrisos embalsamados…
Percorri os espaços da casa, tropeçando nos passos, enquanto repetia a maldita frase-feita… Sentei-me nos degraus cinza e fiquei por lá… espiando a noite envelopar o quintal…
Lembrei-me das Bibliotecas que visitei. Tornou-se um hábito: é sempre o primeiro lugar que procuro ao chegar a uma nova cidade. Quando não encontro uma biblioteca, é como se o lugar não fosse uma cidade.
Conheci templos incríveis, a maioria forjada a partir do maravilhoso projeto-primeiro de Alexandria. Ela fazia parte do Mouseion — o Templo das Musas —, criado para reunir e organizar todo o conhecimento humano. Muito além de guardar rolos de papiro, funcionava como uma universidade: abrigava laboratórios e observatórios. E, ao contrário do que o mito popular propaga, não foi um único e grandioso incêndio que apagou Alexandria da história; seu acervo perdeu-se ao longo de séculos de conflitos e disputas religiosas.
Por lá passaram Euclides, o gênio da geometria; Eratóstenes, que calculou a circunferência da Terra; e Hipácia, renomada filósofa e astrônoma, entre tantos outros mestres.
O que os fanáticos não esperavam é que, mesmo com a perda física de tanta história, a ideia permaneceu, moldando as nossas universidades modernas. Tanto que, em 2002, o Egito inaugurou a moderna Bibliotheca Alexandrina, revivendo esse espírito de pesquisa e preservação. As obras, iniciadas em 1995, custaram mais de 220 milhões de dólares — muito menos do que o mundo gasta hoje com seus conflitos diários.
Uma biblioteca é um templo sagrado, e o único Deus ali invocado é o conhecimento. Toda vez que adentro esses espaços, reverencio esses deuses — não com gestos pantomímicos, mas com tudo o que sou.
Na Biblioteca Mário de Andrade — a minha preferida em São Paulo —, há uma estátua no vão livre dando as boas-vindas. A obra em bronze de Caetano Fraccaroli retrata Minerva, a deusa da sabedoria e das artes, segurando um livro aberto na entrada, ofertando-o a quem em seu reino adentra. É um espaço muito mais importante do que templos de oração onde o ódio, disfarçado de amor, é louvado a partir de livros que acumulam as misérias nascidas justamente da destruição do conhecimento, aquela iniciada em Alexandria.
Pode-se queimar livros. Pode-se fechar bibliotecas… mas a ideia de Alexandria permanece. Ainda que o homem pareça, a cada dia, menos humano e mais artificial.
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