Travessia do Atlântico: a história de Kwame (Parte 2)
Travessia do Atlântico: a história de Kwame (Parte 2)
Ricardo LÃsias: ‘Tenho o único livro de ficção proibido no Brasil pelo STF’
Um personagem na Serrinha
Todos o conhecem pelo seu apelido, Valdinho, tão usado que seu nome é uma incógnita. Não que alguém se importasse se fosse Valdecir, Vanderval ou Valdir. O apelido no diminutivo engana sobre a sua aparência. Beirando os 70 anos, alto e robusto, parece um vilão de filme policial de Hollywood, ou um comissário – papéis reservados aos atores mal encarados. Tem os traços duros e o queixo inflexível, como deveria ser um comissário de polícia cinematográfico. Sempre esconde parte […]https://ivanjeronimo.com.br/2022/07/23/um-personagem-na-serrinha/
Por que levar um travesseiro à universidade?
Oito da manhã e a praça de alimentação está quase vazia. Na área lateral, só duas mesas ocupadas. Em uma delas, uma estudante de uns vinte anos dorme sentada, com a cabeça e os braços apoiados na mesa. Normal, não fosse por ela estar sobre um travesseiro. “Por que você traz um travesseiro para a aula?”, imagino uma colega sua lhe perguntando ao encontrá-la durante o dia. Afinal, se o problema fosse só de sono, bastaria dormir até mais tarde em casa, na própria cama. Mas […]https://ivanjeronimo.com.br/2022/11/21/por-que-levar-um-travesseiro-a-universidade/
Obituário? Nem morta
Tirando os fracassados exercícios de futurologia que são o horóscopo e a previsão do tempo, os jornais lidam com o passado recente. O obituário, aquele anúncio de falecimento impresso a pedido da família, também entra na categoria dos acontecimentos dos últimos dias. Na Folha de São Paulo, essa seção tem um nome seco: “Mortes”. Para amenizar a aspereza, o jornal publica todo dia um perfil sobre alguém que partiu na véspera. Uma professora universitária, um avô que gostava […]Entrou areia na planilha
Oi, Pereira. Estou enviando em anexo a Planilha que acordamos de revisar até segunda-feira. Tendo isso em vista, necessito que você cuide disso ASAP para que o Tomazzini tenha tempo hábil de estar fazendo um merge em um PPT para a Diretoria. — Já que você tinha de ter concordado em entregar trabalho no Carnaval, podia pelo menos ter trazido o notebook, né? — protesta a esposa, deitada na praia em uma tarde quente de céu azul. — É você quem vai explicar pro pessoal do […]https://ivanjeronimo.com.br/2024/02/25/entrou-areia-na-celula-da-planilha/
Uma vaquinha pro exterior
A roupa esportiva e o café na bandeja sugerem que a mulher deve ter saído da academia ou de uma das quadras da universidade. Mesmo vendo-a de longe, o deslizar do dedo indicador na tela do celular revela que ela está rolando postagem após postagem em alguma rede social. Depois de alguns minutos, os dedos estacionam em um post compartilhado por um colega do departamento. Trata-se de uma estudante divulgando sua vaquinha online para morar na Europa, justificando que a bolsa é insuficiente […]https://ivanjeronimo.com.br/2025/10/19/uma-vaquinha-pro-exterior/
A noite se cala contra mim
Hoje eu vi o dia acontecer na minha janela, deixada aberta para a noite sem estrelas. Gosto imenso quando aprecio as chegadas e partidas… do dia, da noite. Crepúsculo. Aurora. Seus tons e aromas e suas alterações. As sombras que se esparramam pelo canto do quintal e a luz que chega… dando forma ao que antes era apenas um borrão de tinta.
Gosto da maneira como a noite mistura todas as coisas e eu preciso me esforçar para distingui-las: uma flor, uma árvore, uma pedra. uma parede. E acho interessante como o dia ilumina tudo, exibindo tudo tão nítido…
Olho lá para fora, dentro da noite, e vejo apenas o breu. É confortável não ver… sabendo todas as coisas que lá estão. Os olhos se acostumam com a falta de luz.
Tenho dificuldade em entender porque as crianças têm medo do escuro. Eu não tinha. Meu momento preferido do dia, era o cair da tarde. Aprendi com o nonno que depois do meio-dia, começava a escurecer e achei isso maravilhoso. Fincava o pé na varanda da casa para espiar os detalhes. O sol alto, no meio do céu a perder força — é realmente mágico. E quando acontecia o crepúsculo, percebia um pequeno intervalo entre luz e escuridão. Como se alguém desse um toque no interruptor apagando as luzes, como C fazia depois que me desejava boa noite.
Durante o dia… são tantas informações. Dificulta o entendimento das coisas. Gosto da luz… de olhar lá para fora e ver a escada deixada pelo meu menino… apoiada no pé de amora. Posso ficar um dia inteiro observando tudo ao redor. Os pássaros que pousam nos degraus… O sabiá laranjeira parece se divertir ao escalar um a um os degraus. Durante a noite, sei que está lá, mas não a alcanço, mistura-se a todas as outras formas-coisas que estão lá: folhas, pedras, galhos — é poético…
Dia e noite existem por um motivo… disseram-me nesta semana que foi uma das primeiras criações divinas. Eu acho interessante as coisas que as pessoas acreditam. É tudo tão denso-complicado, flerta com o inacreditável. Não reverbera em mim. Prefiro a poesia… que é mais simples e encantadora.
#ficção #realidade #ReflexãoOs adultos que durmam um sono tolo assim…
Hoje, ao passear com o cão, vi um bando de meninas brincando de roda, na frente de uma enorme casa. Cantarolavam… “na mão direita tem uma roseira que dá flor“… Foi como unir passado-presente-futuro numa mesma tela.
As meninas de hoje usavam roupas iguais — shorts azuis e blusas brancas. Tinham os cabelos trançados e se pareciam. Reparei que não estavam nada satisfeitas com a brincadeira… motivada por uma figura adulta, que dava as mãos para a criança-que-um-dia-foi…
Eu atrasei o passo para apreciar os movimentos. Na minha infância, eu gostava de observar as cirandas. Meninas de mãos dadas à girar em sentido horário no meio da rua… em meio a cantigas que nunca fizeram sentido para mim… Ficavam um bom tempo a rodar e não me lembro do propósito da brincadeira, se é que existia tal coisa.
Eu gostava de vê-las de minha janela… sem me juntar a elas. Pareciam felizes ao trançar os pés, de mãos dadas, a girar e girar e girar e a cantarolar versos adocicados… dando corda nos movimentos de vida.
#cantigaDeRoda #coisasDaInfãncia #ficção #lembranças #ReflexãoLaboratório de roteiro para jovens de periferia do Rio tem inscrições abertas