A escolhida
Nunca o disse. Falam do prazer, mas para mim é como um susto. Um medo brando quando o desejo do outro esbarra em mim. Não é o corpo, pelo menos não no início. É uma fenda que se abre. Sem aviso. Sem o meu mando.
Começa no peito, um calor lasso. A desproteção. A desapropriação. Nesse instante, não sei de mim. Mostrar o meu interior, a parte que tapo todos os dias. Depois o resto. A pele. O ar que esbarra no outro e regressa diferente. Há um momento em que a cabeça desiste. Fica apenas o sentir. Tudo ao mesmo tempo. A proximidade. Perto demais. Tão perto que o fingimento cai ao chão. Já não há espaço para fingir. Já não há.
O que eu quero. O que eu nunca disse que quero. Não é o espasmo, não é o prazer. É o desejo de importar. O desejo de estar ali. Não por vício. Não por acaso. Porque alguém me quer. Um querer sem sombra.
Sobe devagar. Uma água lenta e forte. Como um mar que se recobre de orvalho. Tento fechar as mãos, segurar, e perco. Perco tudo. O corpo a deitar cá para fora o que estava fechado, há tanto tempo fechado. Quase excessivo. E o fim… não é o corpo. É a trincheira a desabar. Segundos em que o corpo fala, de uma vez, aquilo que a cabeça sempre calou. Uma nudez pior do que a da pele. Como se alguém me visse. A ver mesmo. Exatamente aquilo que sou.
O que fica. Depois dos murmúrios, dos suspiros, o silêncio. As palavras já não fazem falta. Tudo dito.
Então é isso certamente. O clímax. O que nunca admiti. Não é o prazer.
É a mão que aponta e diz: tu.
É,
ser a escolhida.
@almacaeira
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