Crime organizado

Um levantamento internacional trouxe novos detalhes sobre o funcionamento das chamadas fábricas de papers, empresas fraudulentas que comercializam manuscritos científicos, muitas vezes com dados falsos ou plagiados. O estudo, o maior do gênero já realizado, está disponível no repositório ArXiv e reuniu mais de 18 mil anúncios publicados entre 2020 e 2026 em aplicativos e sites de sete dessas empresas, que operam em países como Índia, Iraque, Uzbequistão, Rússia, Letônia, Cazaquistão e Ucrânia. A pesquisa foi conduzida pelo biólogo computacional Reese Richardson, que faz pós-doutorado na Universidade Northwestern, em Evanston, nos Estados Unidos, e contou com mais dois colaboradores: Spencer…

Doença imaginária

Uma doença oftalmológica fictícia, inventada em um experimento sobre desinformação, passou a ser tratada como real por sistemas de inteligência artificial e chegou até a ser mencionada em um artigo científico revisado por pares. Batizada de “bixonimania”, a suposta condição foi apresentada por Almira Osmanovic Thunström, da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, para testar se grandes modelos de linguagem (LLMs) são capazes de identificar desinformação médica ou se estão vulneráveis a ela. O resultado expôs fragilidades tanto dos chatbots quanto do próprio sistema de publicação científica. A falsa enfermidade foi apresentada em março de 2024 em postagens publicadas na plataforma…

Coleção de problemas

A revista médica The BMJ anunciou a retratação de um artigo que apontava uma terapia com células-tronco como um “valioso procedimento” após o infarto na prevenção de insuficiência cardíaca. O paper recebeu o carimbo de inválido depois que uma coleção de inconsistências em seus dados foi apontada no PubPeer, site onde é possível postar críticas e anotações sobre artigo. Uma delas foi um “padrão curioso de repetição” no conjunto de dados, com um alto contingente de números inteiros para a altura e o peso dos pacientes, o que sugere erro ou manipulação de informações. Também chamou a atenção a inclusão…

Páginas clonadas

Acusada de copiar trechos de outros autores e reciclar textos próprios sem dar as devidas referências, a filóloga Carla Rossi foi condenada pelo Tribunal Administrativo Federal da Suíça a devolver cerca de US$ 51 mil ‒ aproximadamente R$ 290 mil ‒ recebidos em bolsas de uma agência de fomento à pesquisa do país, a Fundação Nacional de Ciência da Suíça (SNSF). A decisão também a impede de solicitar novos pedidos de auxílio ao órgão pelos próximos cinco anos. Rossi atua como diretora científica do Centro Scaligero de Estudos sobre Dante, em Verona, na Itália. Também fundou e preside o Instituto…

Sem consentimento

O chinês Shifa Liu, que já divulgou cerca de 500 trabalhos científicos nas áreas de física e matemática em repositórios de preprints, está no centro de uma controvérsia acadêmica após o relato de que incluiu repetidamente o nome da própria filha, uma aluna de graduação de uma universidade norte-americana, como coautora em mais de 100 de seus manuscritos. O caso foi noticiado pelo site Retraction Watch. O nome da filha não foi divulgado pelo site, mas uma consulta aos manuscritos mostra que se trata de Dongqi Liu, aluna da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill. Ela garante que…

Supervisão falha

A Universidade Tongji, em Shangai, na China, demitiu o oncologista Wang Ping do cargo de diretor da Escola de Ciências da Vida e Tecnologia da instituição e proibiu-o de receber promoções, financiamento e prêmios por 24 meses, depois que uma investigação que durou um mês concluiu que ele cometeu má conduta em um artigo publicado na revista Nature em 2024. O estudo afirma que privar células cancerígenas de um aminoácido, a valina, poderia desencadear danos ao DNA e retardar o crescimento de tumores. Mas foram encontrados problemas em 14 das 15 figuras que ilustram o paper – em 10 delas,…

Revista predatória

O biólogo cipriota Evgenios Agathokleous, pesquisador na Universidade de Ciência e Tecnologia da Informação de Nanjing, na China, descobriu que um artigo do qual não era autor foi publicado com sua assinatura em 2023 na revista European Journal of Experimental Biology, sediada na Índia. Poderia ser apenas mais um caso de periódico antiético que publica artigos atribuídos a cientistas sérios para simular respeitabilidade e atrair autores incautos, mas suas práticas predatórias revelaram-se ainda mais disseminadas. Agathokleous solicitou à revista que o artigo fosse retratado, ou seja, removido dos registros da publicação, e recebeu da Prime Scholars, empresa que edita o…

Alucinação coletiva

Uma auditoria realizada em cerca de 2,5 milhões de artigos da área biomédica publicados desde 2023 mostrou que vem aumentando rapidamente a quantidade de papers com referências bibliográficas fabricadas, um problema comumente atribuído a falhas de programas de inteligência artificial (IA) usados para auxiliar autores na escrita científica. Em 2023, a cada 2.828 artigos disponibilizados na base de dados Pubmed, ao menos um citava algum estudo inexistente. Essa proporção começou a ganhar fôlego no segundo semestre de 2024 até atingir, na média de 2025, um em cada 458 artigos. Nas primeiras sete semanas de 2026, houve um novo salto, e…

Impacto questionado

A editora Springer Nature anunciou a retratação de um artigo científico que atribuía ao programa ChatGPT efeitos positivos no aprendizado de estudantes. O estudo foi considerado inválido devido a discrepâncias na análise feita pelos autores, que levaram os editores a perder a confiança nas conclusões do paper. O trabalho havia sido publicado em maio de 2025 na revista Humanities & Social Sciences Communications e teve grande repercussão tanto em meios acadêmicos como em mídias sociais: recebeu mais de 500 citações em outros trabalhos científicos e teve alto índice de leitura na internet, sendo consultado on-line por mais de meio milhão…

A cópia ao alcance de todos

Apropriação indevida de ideias ou textos de terceiros sem a devida citação, o plágio é uma grave e comum violação da integridade científica. Com o aprimoramento das ferramentas de inteligência artificial (IA), paira a desconfiança de que a prática está ganhando fôlego na escrita acadêmica. Mas um levantamento feito com estudantes australianos indicou uma redução consistente de plágio nas últimas duas décadas, que se manteve mesmo após o advento da IA generativa. Entre 2004 e 2024, pesquisadores aplicaram periodicamente um questionário a estudantes, a maioria deles de graduação, de diferentes cursos da Universidade do Oeste de Sydney (WSU), na Austrália.…